Sociedade

Biblioteca de Marvila festeja o seu 3.º aniversário

No 3.º aniversário da Biblioteca de Marvila, estivemos presentes na festa e conversámos com os responsáveis pelo equipamento para obter um balanço da actividade até à data.

Foi com a abertura de duas exposições que se iniciaram as comemorações de aniversário do equipamento situado na Rua António Gedeão, em Marvila.

No piso superior, na cafetaria, os alunos da EB de Marvila elaboraram uma “Viagem por Marvila do séc. XX em BD”, a partir do convívio com os seniores das oficinas comunitárias da memória. Estava exposta através de uma instalação muito criativa, que convida o visitante a percorrer os trabalhos à sua volta, perdendo-se no meio deles, visto que pendem do tecto. Já no lagar, que pode ver-se quase assim que se entra no edifício, os alunos da mesma escola encarregaram-se da decoração de Natal, com trabalhos manuais em formas geométricas.

O presidente da Junta de Freguesia de Marvila, José António Videira, o director municipal de Cultura, Manuel Veiga, e a directora da rede de bibliotecas de Lisboa, Susana Silvestre, juntaram-se à festa e cantaram os parabéns ao equipamento, para depois se comer um enorme bolo que chegou para as dezenas de pessoas que participaram no evento.

As pessoas queriam uma esquadra da polícia ou um auditório para a marcha

Conversámos com a directora da rede BLX, que nos traçou um retrato de sucesso da implantação da nova biblioteca em Marvila: “O impacto é enorme. Não consigo mensurá-lo, mas de repente, em três anos, sentimos que toda a comunidade se identifica com este espaço, até porque as pessoas foram mesmo parte activa da programação, dos serviços e das actividades. É um processo em crescendo, em que todos participam, numa zona da cidade que era muito estereotipada e muito deprimida, num bairro atravessado pela linha do comboio que funciona como barreira. As pessoas encontraram aqui uma resposta a interesses novos que até desconheciam. Desenvolveram novas competências, criaram uma relação afectiva com outras comunidades com as quais não se davam, e sem a biblioteca isso seria muito mais difícil”.

Para Susana Silvestre, outro ponto muito positivo é o de as crianças não serem ostracizadas pelo espaço da biblioteca, porque há um diálogo constante e um esforço para que o espaço faça sentido para todos. Perguntamos se, em relação ao produto cultural, a oferta cria procura: “Completamente, e isso não aconteceu só em Marvila, mas na cidade inteira. Em 2012, à pergunta «O que quer para a Biblioteca de Marvila?», obtivemos como resposta «não quero uma biblioteca» As pessoas queriam uma esquadra da polícia, um auditório para a marcha ensaiar, outras necessidades que valorizavam mais. O serviço tradicional de biblioteca deu lugar a um centro cultural de proximidade, em que o livro e a leitura estão presentes, mas não são o objecto de partida nem de chegada. Todas as actividades vão ao encontro de competências sociais, cívicas, digitais, da Matemática, das Línguas, da música, etc. As bibliotecas não podem ser fechadas sobre si próprias, devem ser um work in progress que se adapta a todos os seus públicos”.

Quanto ao número de utilizadores, a directora da rede BLX explica que varia muito, mas dá o exemplo da mais visitada: “A das Galveias recebe diariamente 700 pessoas, é um espaço que está sempre cheio, particularmente com estudantes, escritores e pessoas com profissões eminentemente do terceiro sector. Esta biblioteca tem muito menor utilização em termos de estudo e investigação, mas uma participação muito superior às outras em actividades, quer seja de sensibilização artística e cultural, inclusão ou programas relacionados com a memória, como no caso do projecto que temos com os seniores”.

120 mil pessoas passaram pela Biblioteca de Marvila em 2018

Conversámos também com Paulo José Silva, coordenador da Biblioteca de Marvila, que nos transmitiu a sua perspectiva sobre os três anos de actividade do equipamento.

O coordenador explicou-nos que o princípio que norteou a programação em Marvila foi um duplo objectivo de envolver as pessoas de Marvila, indo ao encontro dos seus interesses, e de trazer a Marvila pessoas de outros lugares, para conhecerem este espaço. A título de exemplo, está a preparar o evento «Gaivotas em Marvila», em parceria com o pólo das Gaivotas.

“A população reconhece que a presença da biblioteca foi transformadora”, refere Paulo José. “Ouvimos os pais dizerem que as crianças que a frequentam estão mais calmas, lembro-me que as pessoas no início temiam que a zona não fosse segura e isso nunca se confirmou… Em termos de números, tivemos 130 mil pessoas a entrar na biblioteca em 2017 e 120 mil em 2018, por causa da redução do horário. Temos uma média diária que oscila entre as 400 e as 500 pessoas. Não parece, porque temos um espaço muito grande e várias salas. Somos a biblioteca de Lisboa que organiza mais actividades por ano, mas temos também muito público regular, para utilizar o espaço infantil, para usar os computadores, para ler jornais e revistas…”, resume.

O coordenador considera que Marvila é uma freguesia sui generis, em que não há muita facilidade de transporte público entre os bairros. “Do Bairro das Amendoeiras para aqui, não é fácil. Quando há actividades concretas, as pessoas deslocam-se, mas para utilização diária, não tanto. Temos sempre muitos marvilenses, estudantes do ISEL e moradores de outros bairros, mas poderíamos ter mais se houvesse mais e melhores transportes. Posso dar um exemplo engraçado de um senhor que vem de comboio quase todos os dias para ler aqui o jornal de manhã, vindo do Areeiro”.

Para finalizar, perguntamos a Paulo José que projectos gostaria de realizar. Responde-nos que algo que faltava será uma realidade em breve, nos primeiros meses de 2020: fechar as salas de leitura, que não tinham portas. “Não é propício ao recato necessário para a leitura e temos tido algumas queixas sobre isso, mas estará resolvido dentro de pouco tempo”.

Outra coisa de que gostava muito, que apelida de “um desejo talvez um pouco infantil”, era ter uma exposição de dinossauros grandes, para os mais novos. Também gostava de ter mais gente de Marvila nos espectáculos e actividades: “Sabemos que temos sempre casa cheia se fizermos sempre galas de fado, mas sentimos que temos de desafiá-las para outras coisas”. Por fim, refere que seria muito útil e interessante proporcionar cursos de alfabetização, porque existe essa necessidade.

O aniversário chegou ao fim com um concerto no auditório, protagonizado pelo grupo “Ciganos d’Ouro”. Mais um concerto de entrada livre, mais uma sala cheia e mais uma prova de como não há comunidades excluídas da Biblioteca de Marvila!

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