Reportagem

Língua e cultura mirandesas na Secundária Eça de Queirós

resized_Esc Eça de Queirós - língua mirandesa (10) No conforto da biblioteca da Escola Secundária Eça de Queirós, nos Olivais, está agora o novo espaço dedicado à língua e cultura mirandesa: o Espaço Lhuzie.

A inauguração deste novíssimo centro de promoção do que é mirandês é o culminar de uma história já longa de relação e intercâmbio entre a Secundária Eça de Queirós e as Terras de Miranda.

Sob o impulso do professor Fernando Pinto, várias turmas da escola puderam visitar Miranda do Douro e ficar a conhecer um pouco mais sobre esta terra única no nosso país.

Dado o trabalho de promoção da língua e cultura mirandesa entretanto desenvolvido, não admira que a inauguração do Espaço Lhuzie tenha motivado a presença nos Olivais de distintas personalidades ligadas a esta matéria – os autores Faustino Antão e António Cangueiro – bem como a gravação em vídeo de um contributo de Manuela Carmo Ferreira, investigadora ligada à língua e cultura mirandesa.

Também marcaram presença no evento os dois filhos de um dos maiores divulgadores da língua mirandesa, Amadeu Ferreira (sendo que um deles é pai da pequena Lhuzie, a menina que dá nome ao espaço inaugurado…) e a presidente da Junta de Freguesia dos Olivais, Rute Lima.


Um dia muito especial

Numa manhã recheada de surpresas, os alunos do 10.º ano do curso de Artes do Espectáculo encenaram uma representação do conto “L filico i l nobielho”, que na língua portuguesa significa “O fiozinho e o novelo”. Trata-se de um conto de Francisco Niebro, pseudónimo de Amadeu Ferreira.

Também houve tempo para ouvir a “Canção da Burra”, estando presente o seu autor, Sebastião Antunes. Não conhece? Procure no youtube, olhe que vale a pena!

No auditório da Eça de Queirós, os alunos divertidos iam repetindo as palavras que lhes soavam mais engraçadas, à medida que António Cangueiro as pronunciava, falando em mirandês. José Pedro Ferreira, linguista e mirandês de origem, dizia que “saber falar mais do que uma língua é uma riqueza enorme que não deve ser desaproveitada”. Mais tarde, em vídeo, Manuela Carmo Ferreira diria que “uma língua é como uma gruta à qual temos de dizer «abre-te Sésamo!», ou para os mirandeses, «abre-te, fraga!»”.

resized_Esc Eça de Queirós - língua mirandesa (28)Um espaço para a promoção da diversidade

José Pedro Ferreira, que também é membro da direcção da Associação de Língua e Cultura Mirandesa, relata ao EXPRESSO do Oriente as suas expectativas em relação ao novo espaço na biblioteca da Eça de Queirós: “Pode ser um espaço que representa a pluralidade e a diversidade que existe nas nossas comunidades linguísticas. Esta comunidade é multilingue, sobretudo devido à imigração. Espero que este espaço sirva para reconhecer a existência do mirandês e ajudar à sua preservação mas também para reconhecer a pluralidade linguística desta comunidade”.

E porquê Lhuzie? O nome da neta de Amadeu Ferreira é nada mais, nada menos que o primeiro nome mirandês registado no nosso país. Nas palavras do pai, “Foi importante do ponto de vista legal e constitucional, por ser a primeira criança a quem foi reconhecido esse direito. Portugal tem algumas restrições em relação aos nomes, de ordem linguística e jurídica. Ultrapassámos os obstáculos que poderiam existir, no exercício dos direitos constitucionais como o direito ao nome. No final de contas é simbólico porque é possível a um cidadão português ter um nome mirandês!”.

A presidente Rute Lima, que no seu percurso escolar passou pela Escola Eça de Queirós, elogiou a iniciativa, felicitando a directora Maria José Soares e o professor Fernando Pinto: “é de salientar a forma como a Escola aproveita a diversidade cultural que tem na prestação de um serviço público de desenvolvimento cultural”, afirmou. Reiterando que considera a educação e a cultura dois dos “grandes pilares de uma sociedade”, Rute Lima manifestou interesse em conhecer um pouco mais sobre a cultura e língua mirandesas, “para muitos, como eu, ainda por descobrir”.

 

Mirandês nos Olivais começou com uma… russa!

Tudo começou com Darina Mekulova, ex-aluna da Escola Secundária Eça de Queirós. Num trabalho monográfico para a disciplina de Psicologia, contactou directamente com uma estudante de Miranda do Douro, tentando conhecer melhor a sua língua e cultura. Acontece que também Darina tem as suas origens numa língua e cultura minoritárias, neste caso circassianas.

O EXPRESSO do Oriente falou com Darina: “Este espaço significa muito para mim. Na Rússia as minorias são pressionadas… Eu não sentia a cultura circassiana, não conhecia as minhas próprias origens, devido ao passado do meu país e à realidade da União Soviética. Quando comecei a fazer este trabalho descobri montes de coisas que não conhecia sobre a minha cultura. Apaixonei-me, percebi que tenho orgulho no que sou”.

Esta agora estudante universitária de 20 anos (em Portugal há seis anos) criou uma ligação afectiva com as Terras de Miranda: “Gostei imenso de visitar Miranda do Douro, até porque só conhecia Lisboa e de resto só tinha ido uma vez ao Porto. Quero muito lá voltar!”.

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3 Comments

  1. MAS QUE BELA REPORTAGEM! NA ESCOLA EÇA DE QUEIRÓS.
    Notável equilíbrio entre a componente informativa e a componente opinativa! O jornalista captou a essência do projecto e um dos elementos precipitantes da sua concretização: o “factor” russo
    (na versão papel, o nome está correcto: Fernando Pinto, não António Pinto)

  2. Caro professor Fernando Pinto, queira desculpar o erro. Já está corrigido! Aproveitamos para agradecer os elogios e o convite feito ao nosso Jornal para estar presente no evento. Cumprimentos!

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