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António da Silva Quadros: 56 anos de amor à camisola

É o único fundador vivo do Recreativo Águias da Musgueira e em princípio o presidente há mais anos à frente de um clube de futebol. António Quadros anda com dificuldade e já não vê, mas mantém intacta a paixão pelo desporto, pelo futebol e pelo amor da sua vida.

Sim, o amor da sua vida é o Águias da Musgueira. Mais longe na caracterização foi o filho mais velho do dirigente, segundo uma das muitas histórias que António Quadros nos contou no tempo que conversámos no seu gabinete: na festa dos seus 51 anos, perante a família reunida, o primogénito declarou solenemente que todos sabiam que o filho mais velho do presidente não era ele… mas sim o clube. Pois que o Águias tem 56 anos, e ele completava 51!

António Quadros no seu gabinete

A voz de António da Silva Quadros, 71 anos, vibra em cada história, entusiasma-se a cada relato das peripécias de uma vida dedicada ao desporto como atleta, treinador e dirigente.

Tudo começou aos 10/12 anos, em que todos os miúdos gostavam de futebol, e começou a participar em torneios de rua com os colegas. Passou a infância a dar pontapés na bola, na estrada da Alameda das Linhas de Torres. Na altura em que o Lumiar eram quintas, os petizes jogavam com tudo o que parecesse uma bola, mas eram suficientemente ousados para “roubar” as que fugiam por debaixo das bancadas de madeira do antigo campo do Benfica no Campo Grande.

O percurso de António Quadros cruza-se com o Bairro da Musgueira aos 14 anos. “A minha foi a quarta ou a quinta casa a ser feita no bairro, porque na altura cada um fazia a sua barraca. A nossa vida era jogar à bola, com duas pedras a fazer de baliza ali ao pé do estádio de Alvalade. Os miúdos hoje metem-se dentro de casa, não saem dali, mas nós não, estávamos sempre na rua”.

56 anos de casa

O Recreativo Águias da Musgueira é formado em 1963 por iniciativa de um grupo encabeçado por Manuel Rosa, sócio n.º 1 do clube, que tinha trazido do Casal Ventoso o nome Águias da Serra, com algumas taças e equipamentos. “Começámos a formar uma equipa e a ganhar uns jogos. A sede era em casa do Manuel Rosa, que ficou o presidente porque era o único maior de idade em toda a direcção. Sou o único membro fundador vivo porque já morreram todos dessa geração”, conta António Quadros.

A primeira modalidade foi o futebol, a que se juntou o atletismo e, mais tarde o boxe. O nome maior do atletismo foi Luzia Dias, atleta que hoje dá nome a uma prova na freguesia e que alcançou uma medalha de bronze enquanto júnior num Mundial na Noruega. Depois, veio o Benfica buscá-la. “É o costume em todas as modalidades”, nota o presidente, uma referência que repetirá minutos depois em relação ao futebolista Renato Sanches, também ele filho do bairro.

Quanto ao boxe, modalidade em que o Águias da Musgueira registou vários títulos distritais e nacionais, por equipas e individuais (e novamente em 2019), é o orgulho do emblema nos tempos que correm; esse e o facto de competir em todos os escalões de formação de futebol. O presidente recorda-se de ver o actual responsável pela secção de boxe, Carlos Morais, a entrar-lhe na barraca de fralda.

Fotografia antiga, com António Quadros ao centro

Remexendo nas memórias, conta-nos a história do primeiro equipamento do clube, que para não trairmos a narrativa, transcrevemos de um só fôlego: “O Sr. Manuel arranjou-nos 77 escudos, que chegavam para comprar 100 populares, 50 para um e 50 para o outro. Vínhamos desde o Bairro Alto a vender jornais a 1 escudo cada, fazíamos 23 escudos de lucro que depois entregávamos ao Sr. Manuel e foi assim que angariámos dinheiro para comprar os primeiros equipamentos na Casa Amaral, na Rua do Benformoso, que já não existe. O equipamento é vermelho porque a maioria da direcção era do Benfica, só eu e outro éramos do Sporting”.

Também nos revela como o grupo comprou uma televisão a prestações, que colocou na sede e que dominava as atenções todas as noites, porque não havia luz nas barracas. “Lá jogávamos às damas, jogávamos xadrez, fazíamos os nossos bailaricos, sessões de fados. Para fazer o Campo dos Sacrifícios, fazíamos fados todos os meses para angariar fundos”.

Entendemos que o Campo dos Sacrifícios é a menina dos seus olhos, por assim dizer. Recebeu esse nome em memória dos sacrifícios que foi preciso fazer para o tornar realidade. “Quando jogávamos no meio da lama, num campo que foi feito com a nossa força de braços, ninguém queria vir para aqui. Agora todos querem. Não era só jogar, era pegar nas pás e espalhar o areão, o cascalho, fazer as coisas todas como deve ser. António Mateus Marques Rosa, mestre de calçada e presidente da nossa Assembleia Geral, foi ele o meu companheiro de armas nesse tempo”. Inaugurado em 74, do Campo dos Sacrifícios resta uma placa afixada no Complexo Desportivo do Alto do Lumiar, logo ali à entrada.

Campo no Complexo Desportivo do Alto do Lumiar

Tema Renato Sanches

Conforme é do conhecimento público – e foi noticiado na imprensa – António Quadros reclama do Benfica uma compensação monetária pela formação do Bulo, aquando da transferência milionária para o Bayern Munique. O clube da Alta de Lisboa não tem direito a receber direitos de formação ao abrigo da UEFA, uma vez que só se aplicam a partir dos 12 anos de idade dos atletas.

“Tínhamos um acordo verbal com o Benfica, se algum dia ele desse algum negócio grande, eles davam-nos uma compensação para os jovens, mas daqueles milhões todos, só nos deram 750€”, queixa-se o dirigente. “A importância dos clubes de bairro vai muito além do desporto, também se mede nestas coisas e nos miúdos que tira da rua. O Luís Filipe Vieira chamou pérola negra ao Renato Sanches. Ele tinha-a lá, mas quem o descobriu fui eu. O Renato chegou aqui com 7 anos. Depois de 15 minutos a treinar nos Pupilos do Exército, chamaram-me logo a mim e à mãe porque queriam ficar com o rapaz. Ainda só tinha 10 anos e já jogava dois escalões acima”.

O Renato era um dos miúdos que esperava pacientemente que uma bola fugisse do campo do Águias, à semelhança do que o próprio Quadros fazia quando era novo. “A bola saltava para fora do campo, ele lá ia todo contente e ficava com ela. Depois pintava por cima das letras do clube, vinha ter comigo e dizia «Presidente, esta bola não é do Musgueira!». «’Tá bem, leva lá a bola». O resto é história, começou a dar nas vistas e foi-se embora”, acrescenta.

Sobre a algo badalada relação difícil com a União Desportiva Alta de Lisboa, nem uma palavra. O presidente refere apenas que existe uma salutar rivalidade desde sempre, com o CD da Charneca (clube de cuja fusão com outro nasceu o Alta), mas acrescenta que até era sócio do Charneca e chegou a ser presidente da direcção “numa altura em que estavam em crise”.

Placa do Campo dos Sacrifícios

No fim destes anos todos…

A título de curiosidades, António da Silva Quadros foi muitos anos apresentador de fados, mas nunca cantou. “A minha primeira mulher foi uma grande fadista, mas eu era melhor nem tentar para as pessoas não fugirem”, atira, bem-disposto.

Numa altura em que se aproxima certamente o fim da sua liderança dos destinos do clube, garante ter tanta força como tinha aos 18 anos, mas já não ter saúde. “Falo com muita vibração, nas reuniões é igual, dizem-me para me acalmar… não consigo, pelo meu Musgueira faço tudo. Mas sem os dois pés, sem a vista, sem os rins, porque faço hemodiálise, o corpo não aguenta tudo”, lamenta com a voz embargada.

Uma coisa é certa: o emblema foi muito importante para este bairro. “Isto agora está tudo em prédios, mas ainda há muita desgraça no bairro. A minha dinâmica e a minha força era ver a miséria que havia e querer fazer alguma coisa por ela. O Padre Rocha e Melo trazia roupas ali de São João de Brito, de famílias mais abastadas, dava-me e eu vinha ai para o clube perguntar: quem é que precisa de umas calças, quem é que precisa de uma camisa?”.

Agora é diferente. Afirma que o seu trabalho está feito e que pretende ajudar quem vier a seguir, dar conselhos, dar opinião. Desligar-se do clube, nunca! “Os mais pequenos ficam malucos como é que eu, sendo cego, sei quem está a falar, sei os nomes deles todos. Sei os que se portam bem e os que se portam mal. Alguns já os pais treinaram comigo, alguns foram os avôs que foram meus jogadores!”.

Terminamos concretizando o que afirmámos no princípio: “Dizem que o Pinto da Costa é o presidente há mais tempo no activo. É mentira. Lembro-me de ir ao Porto já como presidente, ainda ele era seccionista de boxe”, remata António da Silva Quadros, numa exaltação contida.

Ele que foi filho único, mas deixa 23 netos, que foi vogal do Desporto da Junta de Freguesia do Lumiar e delegado da Confederação das Colectividades, que jogou na Musgueira e em Mafra, que foi assentador de revestimentos, que não se ficava a ninguém, fosse quem fosse (“Podia levar uma tareia, mas ia lá!”), e que dedicou uma vida ao clube que ajudou a fundar… afirma que esta pode muito bem ter sido a sua última entrevista.

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