Reportagem
Lutar pelo Sonho
Actor, criado em Marvila, prossegue sonho de seguir uma carreira artística, apesar de um grave problema de visão.
Foi com um ano que Rogério Rosa começou a ter problemas de visão. Sem o apoio da família e entregue, desde cedo, a centros de acolhimento, a vida do actor nunca foi fácil.
Com uma percentagem de 75% de falta de visão, Rogério teve a oportunidade de, aos 9 anos, fazer um transplante de córnea e resolver a sua situação. A recusa da família do dador acabou com a esperança de Rogério em curar-se, decisão que este aceita com naturalidade.
Com um vasto currículo na televisão, no cinema e no teatro, Rogério aceita a sua condição e tenta não fazer da mesma um obstáculo para lutar por aquilo que quer. É isso que prova o seu percurso.
Estreia em Palco
“O Auto dos 3 Reis Magos, de Gil Vicente, foi a primeira peça da qual fez parte. Integrado no programa escolar do colégio
interno do qual fazia parte, Rogério confessa que odiou a experiência.
“Eu detestava o teatro. Tinha que estar sempre a obedecer às ordens da monitora. Era uma seca”, diz o actor, revelando, em seguida, o verdadeiro motivo deste ódio: “Eram peças escolares feitas para apresentar à família e eu já sabia que nunca tinha ninguém no público para me ir ver”.
A chegada de uma nova monitora, vinda do Brasil, veio, no entanto, mudar a atitude de Rogério em relação a esta arte. Convencida de que o jovem tinha um grande potencial para ser actor, a monitora incentivou-o a seguir esta área, e atribuiu-lhe, no ano seguinte, o papel principal na peça “O Astro”.
O grande salto na carreira de Rogério começa, no entanto, em 1984, depois de participar no Festival da Malta, promovido pelo Diário de Notícias. Com a peça “Marco, um produto de esgoto da cidade”, uma história inspirada na experiência de Rogério como sem-abrigo, o actor alcança o 2.º lugar do concurso e dá início ao seu percurso pelo mundo do espectáculo.
Cantor, Marchante e, por fim, Actor
A vontade de ser actor começa, então, a despoletar-se e a próxima aventura de Rogério dá-se no Mundo da música.
“Em 1990 gravei uma maquete e participei mais tarde no programa “Lugar aos Novos” da Rádio Renascença. O problema é que eu cantava escandalosamente mal mas ninguém era capaz de me dizer. Só quando actuei na Aula Magna é que tomei conhecimento disso”, confessa divertido.
A partir desse momento, Rogério decide parar de cantar e fazer algo que era praticamente impossível para um invisual: ser marchante.
“Foi difícil porque havia partes em que nos tínhamos que guiar pelo colega do lado e eu sem conseguir ver, enganava-me muito”, conta.
Em cada projecto que integra, Rogério nunca revela que é invisual. Convicto de que este não é um impedimento para fazer o que quer que seja, são poucos os que se apercebem do problema do actor.
“Nunca conto que sou invisual. Só se alguém reparar e me disser alguma coisa é que eu acabo por confessar”, revela.
Sem saberem do seu problema, os coreógrafos não entendiam o porquê de Rogério se enganar tanto.
“A uma semana do desfile na Avenida da Liberdade vieram falar comigo sobre o facto de estar sempre a enganar-me. Nessa altura tive que confessar que não via bem. Como não tinham ninguém para me substituir, fiquei. Ensinaram-me o esquema e acabou por correr tudo bem. De tal forma, que voltaram a convidar-me para as marchas no ano seguinte”.
A Aventura na Televisão e no Cinema
Inscrito em várias agências de figuração, é em 2001 que se dá a sua estreia na televisão, no programa Vidas Reais, da TVI.
Segue-se o Big Brother Famosos, onde fez uma figuração, e a novela Doce Fugitiva, que considera ter sido a sua primeira grande experiência, uma vez que lhe deu “a possibilidade de ver como se grava, os bastidores, conhecer actores” e ter uma melhor noção da forma como funciona esta área.
O actor passou ainda pelos Morangos com Açúcar e pela Rebelde Way, mas é na série “Ele e Ela”, da TVI, que Rogério ganha a visibilidade que tanto ambicionava. Mais uma vez, o actor escondeu a sua deficiência e colocou-se numa situação complicada: “Deram-me um papel como agente da polícia e havia uma cena em que tinha que esperar por um sinal da protagonista para avançar. O problema é que à distância em que ela se encontrava, eu não conseguia perceber quando tinha que agir. Tive que acabar por contar que não via bem”.
Desde então, o actor já passou pelo teatro e pelo cinema, onde em breve fará uma figuração especial ao lado de John Malkovich e Maria João Bastos, no filme “As Variações de Giacomo”. Uma oportunidade única, que acontecerá a 18 de Agosto, em Lisboa, e que que simboliza mais uma vitória no percurso de Rogério.
Rumo ao Sonho
Exemplo de força de vontade, Rogério nunca desistiu de prosseguir os seus objectivos. Com um vasto currículo, o actor
encontra, ainda, muitas dificuldades em arranjar trabalhos e nem sempre as portas se abrem tal como gostaria.
Ciente das dificuldades vividas nesta área, o actor apostou na sua formação também em outras áreas, tendo em Marvila efectuado um curso de telefonista e trabalhado como Assistente Social.
A sua ligação à freguesia vem desde os 21 anos, quando esteve nos centros para cegos da ACAPO e APEDV, tendo regressado várias vezes à mesma a nível profissional.
Seja em que área for, o objectivo de Rogério é provar de que “com persistência tudo é possível”.
“O meu principal objectivo não é gabar-me dos trabalhos que fiz, mas sim mostrar como é que consegui fazer tudo isto sem conseguir ver. Quero mostrar que quando se quer algo, se lutarmos por ela, conseguimos”, defende.
É isso que Rogério faz todos os dias e é, precisamente, o sonho que continua a guiá-lo no seu dia-a-dia.





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