Reportagem

Operário Futebol Clube de Lisboa: clube de bairro à beira-rio plantado

O EXPRESSO do Oriente visitou as instalações do Operário para conhecer a sua estrutura e trocar algumas palavras com dirigentes e atletas da formação. Recebeu-nos o seu vice-presidente, Pedro Duarte, que nos apresentou a casa pela qual se apaixonou há décadas.

Sedeado na fronteira entre as freguesias de São Vicente e da Penha de França, o Operário Futebol Clube de Lisboa é uma instituição quase centenária: co mpleta em Maio 96 anos.

Para sermos mais exactos, o clube nasceu no dia 26 de Maio de 1921 numa leitaria do Mercado de Santa Clara, junto à a Feira da Ladra, chamado originalmente Operário Futebol Clube (ou Football Club na versão inglesa que se usou na época). Teve um grande crescimento até aos anos 40, com o seu campo no local onde está actualmente a Escola Básica e Secundária Gil Vicente. Chegou a ter, além do futebol de 11, andebol, atletismo, voleibol, ciclismo e até natação nas piscinas de Alfama. Quando perdeu o campo, o número de sócios e praticantes descresceu, mesmo apesar de uma boa performance desportiva. Jogou a partir daí nos campos do Oriental e do SL Olivais, e até chegou a “roubar-lhes” simpatizantes.

Actualmente, compete nas divisões distritais (1.ª divisão distrital da AFL) e joga na sua própria casa, no campo que data de 1978, situado na Rua Barão de Monte Pedral. Interrompeu a actividade dos seniores no início do século, mas há oito anos o actual presidente, Carlos Perdiz, empenhou-se na recuperação da equipa.

Uma paixão que remonta à adolescência

Pedro Duarte, vice-presidente do clube, conta-nos que morava mesmo em cima do campo: “venho ver jogos do Operário desde que me lembro. Quando tinha 15 ou 16 anos fui convidado para ser seccionista dos iniciados, que aceitei com orgulho. Depois de alguns anos, fui convidado pelo Carlos Perdiz que na altura também era presidente para integrar a direcção e fiquei definitivamente ligado a este clube, ocupando vários cargos”.

Apesar de ter saído aos 30 anos e de ter passado por outros clubes – Damaiense e Casa Pia – acabou por regressar de novo ao Operário, o clube do seu bairro e do seu coração. Afinal de contas, o bom filho a casa torna.

Responsável pela Escola de Formação, Pedro Duarte manifesta o seu orgulho naquele que é porventura o projecto mais importante do clube. Depois de uma experiência menos bem conseguida com um dos grandes de Lisboa, o Operário apostou em gerir a sua própria Escola de Formação e conseguiu logo no primeiro ano um número significativo de inscrições: 100 atletas. O objectivo é alcançar uma meta mais próxima dos 200 atletas na próxima época, contando com uma boa divulgação e com a experiência acumulada no ano corrente. Será assim possível almejar a outros desempenhos desportivos, que no “ano zero” são difíceis de obter.

“O crescimento da nossa Escola é fundamental!”, aponta o nosso amigo. Todos os dias há treinos no campo do Operário, com 5 ou 6 jogos ao fim-de-semana. Também por isso, o vice-presidente queixa-se da chamada crise do dirigismo: “Torna-se difícil guiar o barco com quatro ou cinco pessoas a assegurar seis equipas federadas a competir e mais uma lúdica, com treinos de segunda a sexta e jogos desde as 9h da manhã de sábado até às 15h da tarde de domingo. Mas vamos fazendo o melhor que sabemos, com paixão e dedicação”.

Perguntamos a Pedro Duarte se o seu futuro passa pela liderança da direcção. A sua resposta é politicamente correcta: “No máximo respeito pelo actual presidente, por quem tenho uma grande estima e consideração, estarei sempre disposto a servir os interesses do clube”.

A importância do desporto na vida dos jovens

Apesar de muitos alimentarem o sonho de serem o próximo Ronaldo ou o próximo Messi, o essencial para a maioria é divertirem-se. “Também há os que são quase forçados pelos pais a jogarem à bola, digamos, «para ver o que dá», mas são uma minoria”, nota Pedro Duarte. E acrescenta: “O gosto pela bola tira-os de outras tentações menos saudáveis, onde se calhar socializam menos, não praticam exercício físico e não saem de casa”.

O Operário atrai crianças e jovens de uma área abrangente, porque beneficia da sua localização central. “Temos uma grande percentagem de miúdos da Penha de França, depois São Vicente, e uma margem ainda significativa de outras freguesias como Santa Maria Maior, Areeiro e Arroios. De Marvila e Beato temos menos porque lá há bastante oferta”.

Craques no activo e na enfermaria

Vasco Gomes, 12 anos, está pelo primeiro ano no Operário (infantis) depois de um ano na Associação Frassatti (futsal). Encontramo-lo no posto médico e ouvimo-lo queixar-se de uma dor no braço. Acompanhado pela fisioterapeuta do clube, está em boas mãos. Na nossa conversa, percebemos que é benfiquista e que já sente a camisola do Operário. Quem sabe se será o próximo lateral direito do actual tri-campeão nacional?

Vasco resume o espírito que se vive no Operário como “um clima de união”. Quanto a si próprio, define-se como um “jogador de equipa”.

Na marquesa ao lado, Nuno Rodrigues fez uma entorse da tibiotársica. Vai fazer 19 anos, é júnior e joga há dois anos no Operário. Mora no Areeiro, portanto vem de mais longe que a maioria dos colegas.

Porquê jogar à bola? “Sempre foi a minha paixão desde novo e era o que eu gostava de fazer, sinto-me muito bem dentro do campo”. Fora dele, vai repetir o exame de Biologia para poder entrar na faculdade. Joga a médio-centro e gosta de ter a bola no pé, organizar o jogo da sua equipa. Também é do Benfica, “pois claro”.

Fora do posto médico, começam a comparecer os atletas equipados para o treino. Leandro Pereira e Edi Costa são os primeiros a chegar. Leandro é guarda-redes nos Juniores. Está há dois anos no Operário, depois de jogar no Olivais e no Vitória. Homem de poucas palavras (pelo menos à frente do jornalista) salienta a amizade e o companheirismo que encontrou no clube.

Já o seu colega Edi, 17 anos, é mais comunicativo: este lateral esquerdo vindo do Olivais e Moscavide está há seis meses no Operário e vem de Marvila. “Estamos sempre unidos, independentemente do que aconteça, e isso é bom. É muito importante para os jovens praticar desporto porque se aprende muito”, realça o jovem.

Não abandonamos o recinto sem encontrar Fernando Gonçalves, que desempenha as funções de director no clube. Com mais de uma década de ligação ao Operário, Fernando garante que “Quem corre por gosto não cansa!”. Essa ligação existe desde pequeno, porque foi o primeiro clube de que se fez sócio e chegou até a aplaudir o seu irmão dentro do campo. Como jogador, apenas viu as camisolas do Operário do outro lado da barricada, ou seja, enquanto adversário dentro das quatro linhas… Mas o futebol é mesmo assim!

Para despedida, e a propósito de uma pergunta inconveniente em que se compara o amor ao futebol com o amor a uma mulher, não podemos identificar o autor que um dia nos proferiu a seguinte sentença: “O bichinho do futebol nunca morre e há-de me acompanhar para sempre! Quanto à mulher já não sei”. Mas descansem as companheiras… de certeza que era apenas uma brincadeira!

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