Reportagem

A EMEL vem para Telheiras e nós fomos ouvir as pessoas

O Bairro de Telheiras, na Freguesia do Lumiar, vê o seu estacionamento à superfície tarifado com efeitos a partir de 1 de Janeiro de 2019.

Sabendo que a questão não é fácil de analisar, com vários argumentos que defendem ou condenam esta opção, fomos até Telheiras para ouvir a opinião de moradores e comerciantes, tendo para tal percorrido as Ruas Professor Vieira de Almeida, Professor Francisco Gentil e Fernando Namora.

Boca do Metro de Telheiras

Estas artérias, sobretudo as duas primeiras, estão entre as mais sobrecarregadas, devido à proximidade da estação de Metro de Telheiras e ao Estádio Alvalade XXI (sempre que o Sporting joga em casa), mas também porque se encontram muitos estabelecimentos comerciais na zona, restaurantes e duas escolas com um número muito significativo de alunos. Ali encontrámos dezenas de veículos estacionados em segunda fila, por exemplo.

Sim ou não?

Encontramos Fernanda Machado, 51 anos, a fazer uma pequena pausa do trabalho na perfumaria, que nos garante que a vinda da EMEL é “péssima, não só para os moradores, mas sobretudo para quem trabalha aqui. É certo que há moradores que são a favor, as pessoas estão um pouco divididas, mas eu não tenho dúvidas, sou contra. Para os comerciantes vai mesmo ser muito mau, porque os clientes vão ter de pagar para comprar no comércio local”.

Fernanda, que trabalha na perfumaria há 20 anos, diz-nos que a maioria das pessoas com quem contacta na loja não querem a EMEL em Telheiras. Mas insiste em que reparemos no seu caso: “Quem é funcionário não é, digamos, comerciante nem é morador. Então, vou ter de pagar 80 euros por mês se vier de carro?”.

Uns minutos depois, encontramos Carlos Lima, 60 anos, à espera do autocarro. Afirma ser “100% a favor, para racionalizar o estacionamento e impedir a sua utilização abusiva, sobretudo as pessoas que vêm até aqui para utilizar o Metro e acabam por sobrecarregar os residentes”.

João Coelho

“O Metro chegou em 2002 ou 2004, a partir daí começou a aumentar a procura pelos lugares do estacionamento e muitos andam por aí às voltas à procura de lugar para estacionar o carro durante o dia porque todos os bocadinhos estão ocupados”, explica Carlos, morador de Telheiras há 25 anos. “Também há o facto de quem estacionava ali ao lado em São Domingos de Benfica ter passado a vir para Telheiras quando os parquímetros apareceram por lá”.

Já João Coelho, 52 anos, morador de Telheiras desde 2009, é peremptório: “Sou contra, acho que isto é uma cambada de chulos. Não me posso queixar porque não tenho muitos problemas para estacionar onde moro. Aqui ao pé do Metro sei que é muito mais difícil, mas o problema disto tudo é a falta de transportes públicos. Se os transportes públicos funcionassem como deve ser, as ruas à volta do Metro não estariam tão carregadas de carros. Autocarros a passar de meia em meia hora, isto admite-se?”.

Este mesmo grau de revolta encontrámos em outras pessoas, uns dirigindo-se em termos mais impróprios para reprodução, outros de forma mais contida. Também encontrámos quem fosse a favor da chegada da EMEL, mas não quisesse deixar a sua opinião registada.

Rosário Martins, Quiosque O Príncipe

Rosário Martins, 65 anos, que encontrámos ao balcão do Quiosque O Príncipe, afirma conseguir compreender os dois lados: “A vinda da EMEL para aqui vai ser má, na minha opinião. Já pagamos tantos impostos, é carregar ainda mais no bolso das pessoas. Consigo entender as duas partes, mas por exemplo, estou aqui no quiosque a trabalhar por turnos com o meu marido, cada um tem o seu carro, e só vou ter um dístico, porque o segundo já paga o normal, muito mais caro. Nós vimos da outra banda, não dá para apanhar três transportes diferentes e abrir o quiosque às 6h da manhã!”.

Perguntamos-lhe qual a opinião maioritária entre os seus clientes e se o assunto tem sido abordado pelas pessoas: “Vejo muita gente que vem aqui deixar os filhos na escola e depois segue para o trabalho. Vejo muitas pessoas revoltadas. Talvez fosse mais justo poderem pagar um valor diário e poderem deixar o seu carro o dia todo, não sei. Sei é que as pessoas vão ser prejudicadas”.

Um folheto, uma petição e o processo em curso

A Junta de Freguesia do Lumiar distribuiu um folheto em vários locais do bairro, com uma mensagem assinada pelo presidente Pedro Delgado Alves, que adianta que a EMEL vai tarifar o estacionamento nos pontos mais críticos de Telheiras “na sequência de vários pedidos de muitos moradores” e define a medida como “necessária para melhorar a utilização do espaço público, evitando que os bairros se tornem meras zonas de estacionamento desligadas da sua vida própria, criando áreas reservadas aos moradores e assegurando o acesso de estacionamento a quem vem ao comércio local”.

Sete veículos estacionados em segunda fila

Em sentido contrário, circula online uma petição que argumenta que “a vinda da EMEL não é requerida nem necessária, nem foi solicitada pelos moradores de Telheiras” e que solicita, entre outras coisas, a “criação de bolsas de estacionamento exclusivo com acesso controlado por cancela para os moradores, lojistas e serviços, em impasses e logradouros”. A petição contava com cerca de 1200 assinaturas à data de redacção deste artigo.

Certo é que os moradores e comerciantes já podem pedir o seu dístico nos postos da EMEL ou nos equipamentos da Junta de Freguesia do Lumiar, de preferência até 21 de Dezembro. O número de lugares disponibilizados ascende aos 3300, divididos por várias zonas que já estão a ser pintadas. Os dísticos de residente podem ser atribuídos até um máximo de três por habitação, para determinada zona de residência e escolhendo uma zona contígua.

Custos dos dísticos:

– Moradores: pagamento anual de 12 euros pelo 1.º dístico, 30 euros pelo 2.º dístico e 120 euros pelo 3.º.

– Empresas: o dístico custa 25 euros mensais, mais 12 euros anuais de emolumentos.

Os moradores podem preferir avenças mensais de estacionamento em três parques cobertos e vigiados, com um total de 323 lugares. O custo é de 35 euros por mês.

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