Reportagem

Vidas recuperadas

Na Comunidade Vida e Paz (CVPAZ) encontramos histórias de vida repletas de sofrimento, de luta e de angústia. Pessoas que, em algum
momento sua da vida perderam o rumo e acabaram por ir parar à rua. Recuperá-los e inseri-los na sociedade são os principais objectivos
desta Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). O EXPRESSO do Oriente revela-lhe aqui o caso de sucesso de Rui Machado.

Por vezes pensamos que os nossos problemas são os piores do mundo, mas esquecemonos de que, por muito grande que seja o problema,há sempre alguém com um ainda maior. Toxicodependência e alcoolismo são os principais factores que levam as pessoas a ir viver para as ruas, na base dos problemas está a desestruturação familiar. “Ninguém está livre
disto, tudo depende das vicissitudes da vida e das escolhas que se faz”, explica Jorge dos Santos, presidente da CVPAZ.
A história de Rui Machado, 46 anos, é apenas uma das muitas que contam as ruas da amargura. Começou com drogas leves aos 13 anos, haxixe e erva, depois até às drogas mais pesadas, como heroína e cocaína, foi um passo.

Viver para a droga

Mas voltemos à origem do problema. “Há uma série de causas que nos levam a este ponto, na minha situação foi a pobreza extrema que me fez começar a consumir. Vivíamos numa casa como ocupas, éramos seis ou sete numa sala e só não nos expulsaram porque a lei não permitia,
visto que a minha mãe era de idade. Quando ela morreu deram-me logo ordem de despejo, à qual não obedeci”. A partir daí, “comecei a
perder a vontade de ir à escola, deixei de acreditarnos meus sonhos, passei a achar que não valia a pena lutar porque as portas estavam todas fechadas. Acreditava que para vivermos cá fora tínhamos que ter aquilo que chamamos de “cunha” para nos safarmos e eu não tinha”. Por volta dos 25 anos o dia-a-dia era um ciclo vicioso, Rui acordava por volta da uma da tarde a ressacar e a pensar no que iria fazer para arranjar dinheiro para mais uma dose que lhe tirasse as dores e o deixasse mais calmo. “Passei a viver em função das drogas. Arrumava carros ou fazia uma trafulhice qualquer e depois ia até ao Bairro da Curraleira comprar as drogas e se se proporcionasse estava lá o dia todo”.

Nada acontece por acaso

Rui Machado já perdeu as contas à quantidade de vezes que foi enganado e roubado nas ruas pelos dealers. “Começamos a achar que afinal não faz sentido continuar nestemundo”. Certo dia, ao ver um jovem que conheceu em criança, apercebeu-se de que aquele rapaz tinha casado, conduzia um bom carro e tinha uma boa vida… Durante um ano tomou metadona para se tentar livrar da maleita que o consumia de tal forma
que ele se tornara irreconhecível às outras pessoas. “Estava imundo, cabelo comprido e com piolhos, barba por fazer e muito magro, talvez pesasse uns 50 quilos”, tinha chegado ao fundo do poço. Um dia, por acaso, encontrou um outro amigo que já não via há algum tempo. “Costumava andar comigo a vender coisas na feira da ladra, fazíamos trinta por uma linha”. O rapaz que conhecera um dia estava transformado. “Vejo-o bem vestido, gordinho e surpreendi-me. Fui disparado ter com ele ver o que se passou e ele olha para mim com uma
cara estranha. Nós não temos a noção da nossa aparência. Ele diz que está a trabalhar e peço-lhe que me arranje um trabalho,
mas ele responde que tenho de pôr as ideias no lugar antes de trabalhar”. Aquelas palavras soaram-lhe a desculpas de alguém que não estava interessado em ajudar, no entanto, “deu-me um cartão com a morada da Comunidade Vida e Paz, onde tinha que me apresentar e lá fui ver
no que dava”. Foi a partir daqui que a sua vida mudou radicalmente. “Tive a felicidade de conhecer airmã Maria Gonçalves, fundadora da nossa instituição e dela me dizer que eu estava na minha casa, que aquela era a minha família e quando temos uma pessoa como ela a dizernos
isto percebemos que não há falsidade”. Está fora das drogas há mais de 1825 dias, ou seja, cerca de cinco anos e só tem a agradecer a todos
aqueles que o ajudaram neste processo. “Se nãofosse a CVP tenho a impressão que não iria durar muito tempo”. A família não quis ter que lidar com este problema. “Senti que se não tivesse esta porta aberta tinha morrido ou feito uma estupidez maior. Mas o tratamento ajudou-
me a ver as coisas de outra forma”.

Trabalho

Sonhos tem poucos. “O meu ordenado não permite muito, repare que ainda vivo na Comunidade”. Constituir família está, por isso, fora de questão, “talvez tirar um curso universitário na área da Teologia”. O objectivo é aprofundar conhecimentos para depois “poder abrir portas a pessoas como eu, porque o melhor conselheiro para um toxicodependente é um ex-toxicodependente, pois há uma identificação e conhecimento de causa”. Rui Machado gostava de poder arranjar um trabalho que lhe desse condições financeiras para conseguir
progredir na vida, no entanto, acredita que a sociedade ainda não está preparada para receber pessoas com um passado como o seu. “As pessoas ainda desconfiam muito de nós. O empregador, se não souber que tenho este problema, dá-me as mesmas oportunidades que dá a qualquer pessoa, se souber exige muito mais de nós. Estou a necessitar que me dêem uma oportunidade justa, não que venham apontar os mínimos erros. É exigir que nos transformemos numa máquina sem falhas nenhumas e isso não acontece”.

Contactos:

Sede: Rua Domingos Bomtempo, n.7, Alvalade
1700-142 Lisboa
Site: www.cvidaepaz.pt
Tel: 21 846 01 65
Tlm: 91 234 02 22
E-mail: geral@alvalade.cvidaepaz.pt
Espaço Aberto ao Diálogo
Rua Rui de Sousa, lote 68, Chelas, Marvila
(atrás da Escola Secundária D. Dinis)

Ver mais

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Close