Início » Dossier, Sociedade » FC Prior Velho renasce das cinzas

No ano em que completa o seu 60.º aniversário, o FC Prior Velho faz por merecer o respeito e o carinho de uma população que quer servir, apesar das dificuldades.

A história chega a ser surreal em alguns capítulos, mas o certo é que não há maré que derrube este barco. O EXPRESSO do Oriente visitou o Centro de Actividades “In Omnibus”, na Rua de São Tomé, no Prior Velho, para se encontrar com Nuno Eloy, o homem que carrega às costas a missão de reerguer o FC Prior Velho, e Francisco Figueiredo, companheiro de longas batalhas.

A profissão é a de fiel de armazém, mas a segunda casa é o clube onde jogou futebol de 11 entre 1991 e 1996. Era, de resto, a única modalidade na altura, além de meia dúzia de corridas organizadas pontualmente, já perdidas no tempo.

No início de 2013, Nuno Eloy começou a interrogar-se sobre os motivos que levaram o emblema a um longo período de inactividade (desde 2002, pouco tempo depois de se ter sagrado campeão da 2.ª série onde competia) e começou a desenhar-se o sonho de o relançar. Reunindo pouco mais de duas dezenas de amigos, contactou o presidente da Mesa da Assembleia do clube, Carlos Dias, que o ajudou com os trâmites legais para iniciar actividade e assim foi: a 31 de Julho de 2013 o FC Prior Velho deixou de ser um clube morto.

A primeira pedra no sapato foi difícil de tirar: uma dívida de IMI que só foi possível saldar depois de vender tudo o que era ferro-velho e outras soluções igualmente criativas. Mas havia outros obstáculos: a falta de espaço para reuniões, para actividade desportiva, a falta de material, a falta de apoios…

Esforço e dedicação

O próprio espaço onde realizámos a entrevista inicial é fruto do suor de meia dúzia de pessoas. Antiga sede de um clube de caçadores, teve de ser negociada uma renda com a senhoria e foram feitas obras no local. Recebeu o nome de Centro “In Omnibus”, por se querer de todos e para todos. “Em 12 dias conseguimos partir paredes, pintar, arranjar chão e canalizações”, orgulha-se o presidente Nuno Eloy.

Neste momento, graças ao esforço de um núcleo muito próximo (muito menor que as 20 e poucas pessoas originais) e ao apoio pontual de terceiros, o clube tenta voltar a erguer-se. Depois de uma altura em que as reuniões se faziam nas escadas da rua, ao ar livre, ou numa sala de catequese da Paróquia do Prior Velho (cortesia do Padre Valentim, que já não está na Paróquia), hoje o panorama é outro.

Pratica-se no clube as modalidades de futsal, karaté, zumba-fitness, zumba-strong, wall-fit, hip hop, kizomba e ginástica localizada. Este ano também marcou o início de um projecto de futsal feminino sénior, que conta com 17 jogadoras. No total, os atletas e participantes nas actividades do clube ultrapassam as 100 pessoas, entre os 4 e os 40 e tal anos.

Também promove convívios e festas, como o Dia da Criança, com jogos tradicionais; ocasionalmente há filmes exibidos com projector e também merece destaque um projecto de hortinha social.

“Tivemos de dizer que não a outras actividades por falta de espaço, nomeadamente o facto de não nos permitirem o acesso ao pavilhão em horas adicionais, em que sentimos que somos discriminados”, lamenta o presidente.

Pesadas dificuldades

Nuno Eloy relata-nos uma série de situações relacionadas com o acesso ao pavilhão (Centro de Actividades do Prior Velho) em que se queixa de critérios arbitrários por parte dos responsáveis. “Chegámos a ser barrados à entrada juntamente com as 76 senhoras à espera de uma aula de zumba, apenas por termos 11€ em dívida!”, afirma o dirigente.

Mas este é só um episódio das duras batalhas dos últimos quase cinco anos. Além da dívida de IMI e dos problemas com o pavilhão, o clube viu esfumar-se a possibilidade de receber um campo praticamente novo do Estoril Praia, por não receber luz verde da Câmara de Loures.

“Temos muito a lamentar em termos de falta de apoios por parte do poder local. Penso que foram muito injustos connosco. Não tivemos o apoio nem o incentivo certo. Quer a Junta, quer a Câmara de Loures fecharam-nos algumas portas, negaram-nos reuniões, deixaram-nos inúmeros contactos sem resposta. As coisas só mudaram um pouco com o actual presidente da União de Freguesias de Sacavém e Prior Velho, Carlos Gonçalves. Antes dele, nem nos davam uma mísera lata de tinta ou um pouco de cimento, mesmo que não tivéssemos dinheiro para pagar essas pequenas obras. E atenção que nós não pedíamos muita coisa! Só pedíamos as condições mínimas, como as casas-de-banho para o nosso ringue, que em pleno século XXI é inacreditável não se ter”, resume o presidente.

Fiel à sua missão

Com apoios ou sem eles, o clube tem fortalecido a sua oferta desportiva, mantendo-se sempre fiel à sua política de responsabilidade social: “Nunca fechámos as nossas portas às crianças, independentemente das condições económicas das suas famílias. A nossa missão é também a de não deixar que estas crianças se ocupem com coisas menos adequadas, porque sabemos que as ruas são um local perigoso”, aponta Nuno Eloy.

Quando perguntamos ao dirigente qual seria a melhor prenda, responde que tem duas prioridades imediatas: a tal casa-de-banho no ringue e que seja resolvido o problema do pavilhão do Prior Velho, com uma política de admissão transparente. E remata: “O que mais desejo é que o clube volte a ter o nome que já teve quando eu era menino e que volte a ser respeitado”.

Fundado em 28 de Janeiro de 1957, numa junção de três colectividades de rua vizinhas, e ainda com dois sócios fundadores vivos, o FC Prior Velho procura voltar a ter nome e a ser acarinhado pelos habitantes da zona.

Encontrámos uma centena de pessoas cheias de alegria e entusiasmo, desde o zumba ao karaté, do futsal feminino ao hip hop. Desejamos o melhor a toda esta gente e aos corajosos dirigentes que tornam o sonho possível!

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