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As meninas dos Pastéis da Bola

O frio não as impede de sair de casa, aprendem depressa e treinam por puro gosto pela modalidade; em Marvila, as meninas da AD Pastéis jogam cada vez melhor à bola!

Treinam no campo do Clube Ferroviário de Marvila, ali mesmo ao lado da linha do comboio, duas vezes por semana. O compromisso e a regularidade são factores fundamentais na formação desportiva e isso não é estranho a estas jovens: só foram suspensos os treinos dos dias de tempestade grossa em Dezembro!

A mister da equipa é a mesma que orienta os treinos da equipa de seniores feminina. Joana Duarte Rosa foi internacional sub-18 e sub-19 e a sua paixão pelo futebol começou desde pequena: aos 8 anos já jogava na rua, depois na escola e por esses campos fora, até envergar as cores do Olivais e Moscavide, 1.º de Dezembro e Futebol Benfica. Chegou mesmo a sagrar-se campeã pelo Fofó!

Nascida e criada em Marvila, Joana Rosa acabou por aderir ao projecto da AD Pastéis por entender que coincidiam nos objectivos: “Foi um clube que se predispôs a ajudar em tudo o que fosse necessário. Quando apresentámos o nosso projecto, foi fácil conciliar com a visão que o clube tinha. O objectivo é simples: ter o máximo de meninas da freguesia a praticar desporto”.

Na equipa sénior, competem entre 20 e 25 atletas, um número bastante bom para o primeiro ano de actividade. Disputam a Série G da II Divisão do Campeonato Nacional. Na formação, são 12/13 meninas a treinar todas as semanas (junto com alguns rapazes do escalão de infantis) e a disputar jogos e torneios amigáveis. A atleta mais nova tem 10 anos, chama-se Matilde e já dá tudo em cada lance que disputa!

Treinar com as miúdas e com as graúdas

Como em todas as equipas, há quem se destaque e atinja um nível acima dos colegas. Sara Mendonça é essa atleta. A jovem de 14 anos treina semanalmente com as companheiras da sua idade, vai a casa «comer qualquer coisa» e regressa ao campo do Ferroviário para treinar de novo com as seniores. À data da nossa reportagem, na segunda semana de Janeiro, já conta sete jogos a doer, com a equipa sénior no campeonato. Uma dedicação apenas possível porque o pai a acompanha para todo o lado, garantindo que não faltam à filha todas as condições.

No princípio, foi um torneio escolar no externato que frequenta, que teve o condão de despertar o bichinho. “Comecei a jogar o ano passado, mas já jogava futsal desde há dois anos”, conta-nos após o treino. Jogava numa escola do Belenenses, clube a que o pai está ligado, desportivamente e no coração. Contudo, Sara torce mais pelo Sporting.

A sua timidez não lhe permite gabar-se do facto de estar a treinar a disputar partidas entre as seniores, nem consegue descrever exactamente como se sente por isso, mas aborda com naturalidade uma eventual carreira na modalidade: “Nunca penso muito no assunto, mas não faz mal se a vida seguir por outro caminho qualquer. Gosto de jogar e vou jogar enquanto continuar a gostar”, resume. Como jogadora modelo, aponta Ana Borges, do Sporting, por se identificar com a atleta.

Meta: atrair mais jovens jogadoras para poder competir

A entrada dos grandes no futebol feminino trouxe maior visibilidade à modalidade e proporcionou algum crescimento, fomentando a formação. Esta é a opinião de Joana Rosa, que esperam que esse movimento cresça e aumente a qualidade do talento nacional. Parece ser um facto que, com os jogos transmitidos na televisão, há mais pais a pôr as meninas a jogar. Em Dezembro de 2019, a FPF anunciava em comunicado ter-se atingido, pela primeira vez, mais de 10 mil praticantes federadas de futebol e futsal, com a maior fatia, 6020 mulheres, inscritas no futebol.

Foi percebendo esta dinâmica e procurando colmatar a necessidade de um clube de formação na zona oriental de Lisboa, abaixo do patamar dos grandes de Lisboa, que a AD Pastéis da Bola quis embarcar nesta aventura.

“Somos um grupo de amigos, pais de meninos que jogavam na escola de futebol do Belenenses de Alvalade, que começou a juntar-se para jogar à bola, em 2015. Primeiro tínhamos outro nome, ligado ao Belenenses, mas depois ficámos autónomos e passámos a ser a Associação Desportiva dos Pastéis da Bola”, explica o presidente do clube, Nuno Rodrigues.

Conversamos com o dirigente e parte da sua equipa, Ricardo Pereira e Tiago Sobral, que nos explicam que a meta é ter jovens raparigas para competir em todos os escalões de formação. Visto que as raparigas só podem jogar em equipas mistas até aos 13 anos, ao atingirem essa idade deixam de poder jogar, a não ser que encontrem uma equipa exclusivamente feminina. “O próprio facto de treinarem e jogarem como rapazes é bom para o seu crescimento desportivo, mas também tem efeitos negativos por não terem tratamento diferenciado, por poderem sentir-se menos à vontade numa série de coisas, por o jogo poder ser mais físico, etc.” aponta Nuno Rodrigues. “Queremos ter uma equipa em cada escalão, alimentar a nossa equipa sénior com a formação e acima de tudo transmitir os nossos valores, do fair-play, da camaradagem, do respeito, da solidariedade”, completam os colegas de direcção.

A nossa conversa termina para permitir aos nossos amigos uma pausa antes do último treino do dia. Os holofotes só apagam às 23h, quando se fizerem os alongamentos depois do treino das seniores e Sara Mendonça estará entre essas jogadoras, em mais um treino duplo no sintético de Marvila.

Fica um convite: qualquer jovem que queira experimentar, mesmo que nunca tenha jogado à bola, encontrará as portas da AD Pastéis da Bola abertas!

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