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Padroeiro de Lisboa: Santo António ou São Vicente?

Santo da devoção popular deste há séculos, Santo António (de Lisboa, não de Pádua!) não é, na verdade, o santo padroeiro oficial da cidade de Lisboa.

Ao contrário do que pensarão muitos lisboetas e portugueses em geral, o santo padroeiro de Lisboa não é Santo António. O santo casamenteiro, a quem se rezam os responsos quando se perde alguma coisa, o santo dos arraiais lisboetas, nascido em Lisboa e falecido em Pádua, originando uma (saudável) disputa entre as duas referências geográficas… não é o orago de Lisboa e con vém sabê-lo para não dizer asneira quando lhe perguntarem!

São Vicente é desde 1173 o padroeiro oficial de Lisboa e está ligado à nau e aos dois corvos que figuram no brasão da cidade. Mas afinal de contas, quem foi este santo?

O padroeiro de Lisboa é um mártir espanhol, de Saragoça, que viveu entre os séculos III e IV. Para a Igreja, mártir é aquele que sofre perseguição e morre pela sua fé e por recusar renunciar a ela. Foi isto que aconteceu a Vicente, um diácono que se recusou a adorar os deuses pagãos do Império Romano da altura, quando Diocleciano era imperador.

Depois de torturado, Vicente foi condenado à morte em Valência e o seu cadáver deixado para os abutres, por volta do ano 304. Reza a lenda que um corvo protegeu o seu corpo do apetite dos abutres e que depois de lançado ao mar foi devolvido pelas marés, o que originou desde logo fama de milagre.

Mas porquê então a relação com Lisboa? A ligação só chega mais tarde, no século XII, quando o culto de São Vicente já está amplamente difundido por toda a Península Ibérica e até fora dela. Quando, por volta do século VIII, os muçulmanos transformam as igrejas em mesquitas, os cristãos de Valência embarcaram as relíquias do santo para que se salvassem. O barco terá dado à costa no Promontório Sacro, ou de Sagres, que hoje conhecemos precisamente como Cabo de São Vicente. Aí foi construída uma ermida, onde foram enterrados os restos mortais.

Novamente com contornos de lenda, reza a história que o rei D. Afonso Henriques teria prometido recuperar as ossadas do santo se conquistasse Lisboa, algo que acontece em 1147. Mas teria de esperar até 1173 para o conseguir, uma vez que o Algarve era ainda ocupado pelos mouros. As relíquias de São Vicente foram localizadas – outra vez, com o auxílio de corvos – e trazidas para Lisboa por uma nau, guardada por dois corvos durante toda a viagem. É por este motivo que o brasão de Lisboa apresenta um barco com dois corvos, um na popa e outro na proa.

Chegaram a 15 de Setembro e o acontecimento foi de tal modo importante que o mártir substituiu São Crispim como padroeiro da cidade (por ter sido tomada aos mouros no dia de São Crispim).

A memória de São Vicente é celebrada pela Igreja no dia 22 de Janeiro. A título de curiosidade, foi neste dia que o actual Cardeal Patriarca e bispo de Lisboa, D. Manuel Clemente, recebeu a ordenação episcopal, em 2000. A Igreja de São Vicente de Fora também deve o seu nome ao mesmo santo, já que terá sido construída no local onde D. Afonso Henriques mandou erguer um templo dedicado ao mártir padroeiro.

Famoso em todo o mundo cristão, Santo António ganhou em Lisboa uma devoção popular que o tornou “maior” que São Vicente. Por cá nasceu, cresceu e se fez frade. De tal modo que o dia 13 de Junho, dia de Santo António, é feriado na capital e as Festas Populares lhe são dedicadas.

Contudo, atrevemo-nos a dizer: no coração de Lisboa há espaço para os dois!

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