Início » Dossier, Reportagem » Bordalo II obriga-nos a pensar no desperdício

Assina como Bordalo II e inaugurou no dia 4 de Novembro a sua primeira exposição a solo num espaço fechado. Aos 30 anos, Artur Bordalo apresenta num armazém de Xabregas um conjunto de trabalhos que nos assaltam a consciência e apontam o dedo ao nosso consumismo.

A afluência tem sido de tal ordem que as filas à porta do n.º 49 da Rua de Xabregas foram uma constante na primeira semana, precisamente aquela em que realizámos esta entrevista.

O artista Bordalo II, autor de trabalhos à vista de toda a gente, como a obra “Lisboa” no Cais do Sodré, recentemente inaugurada, “Half Rabbit”, em Vila Nova de Gaia, ou “Olhos de Mocho”, na Covilhã, convida os lisboetas a olhar para o lixo e a confrontar-se com os seus próprios hábitos.

Neto do pintor Real Bordalo, que viu retratar Lisboa em aguarela e óleo e de quem aprendeu técnicas – e uma veia artística – apresenta-se aos leitores do EXPRESSO do Oriente numa entrevista descontraída e informal. Desde logo porque trata imediatamente o jornalista por tu, quebrando as formalidades inúteis de um primeiro encontro.

Na exposição “Attero” (“desperdício” em latim”), os nossos olhos prendem-se em todos os sítios ao mesmo tempo, pelo que prometemos voltar para observar cada detalhe com mais tempo. O rinoceronte enjaulado, a caveira na parede, metade Natureza, metade lixo humano, os plásticos que boiam nas águas do mar.

Entrevista

Como é que te surge a inclinação artística, quais são os elementos que têm mais peso no surgimento desta tua faceta?

Desde novo, desde que me lembro de existir que rabisco e pinto. É algo que me vem de família, o meu avô, Real Bordalo, era pintor. Aos fins-de-semana, eu ia para o atelier dele e pintava com ele, usava os materiais… Esse é provavelmente o primeiro contacto que tenho com a arte. Mais tarde, toda a adolescência foi passada a fazer graffiti pela rua. Portanto, acaba por ser uma mistura das duas coisas, juntamente com a consciência ecológica e a preocupação ambiental que eu sempre tive. Juntamos estas três coisas e um dia mais tarde começo a fazer o trabalho que aqui apresento.

Tudo isso então começa desde bem cedo. Com que idade? Os desenhos, logo em criança…

Sim, os desenhos, desde que eu me lembro de existir. O graffiti começa aos 11, tal como a consciência ambiental e ecológica também faz parte de mim desde muito cedo. E sempre gostei muito de animais.

O graffiti surge como um acto de rebeldia?

Não gosto muito da palavra rebeldia porque é muito abrangente. Gosto de lhe chamar graffiti livre. Pintar na rua, fazer aquilo que os miúdos querem fazer. Fazer a pequena publicidade para combater a grande publicidade, sentirem que também têm o seu nome em algum lado.

Pensando novamente na influência familiar, o teu avô era-te muito próximo?

Sim, sobretudo ao fim-de-semana e nas férias. Ele ensinava-me técnicas, ensinava-me a utilizar os materiais, etc.

Depois optas por estudar Belas Artes.

Acabei por ir para a faculdade, não terminei o curso mas tirei partido de muitas disciplinas e de alguns professores que me ensinaram coisas e que me motivaram. Comecei a fazer peças na rua e comecei a ter cada vez mais trabalho, a dada altura já não fazia sentido continuar o curso e fui por aí adiante.

Trabalho não só em Portugal, mas também lá fora.

Bastante mais fora. Andei pela Europa fora, percorri os “States”, fiz peças na Ásia, em ilhas no Pacífico, sei lá, tanta coisa…

Sendo que a consciência ambiental, o desperdício, a sustentabilidade são sempre princípios omnipresentes na tua obra.

Sem dúvida. São a base da minha obra.

Alguma peça te marcou especialmente?

Há sempre peças que me dizem mais do que outras, por vezes há peças que na altura em que as acabo não são especiais mas que passado um mês, afinal já gosto mais. Uma das peças mais importantes que fiz foi um presente de Natal, numa altura em que houve uma greve geral da recolha do lixo. Era um caixote do lixo, rodeado de todo o lixo das prendas de Natal. Chamei-lhe “A prenda para a Mãe Natureza”. Depois do Natal, das prendinhas, de todo aquele ritual, que não me diz nada, o lixo é aquilo que sobra. É o que a gente dá ao planeta. Era uma peça efémera. Pintei tudo de uma cor, pus um laçarote em cima e estava feito. Era muito simples mas com uma mensagem muito forte, muito directa.

Porventura nunca deixas um trabalho pronto sem que estejas satisfeito, mas ainda assim perguntamos: há, pelo contrário, alguma peça da qual não tenhas gostado?

É verdade, não consigo largar uma peça enquanto ela não estiver como eu acho que tem de estar. Fica fechada quando chego a esse ponto. Posso não gostar muito dela, mas tenho de estar satisfeito.

Como te defines enquanto artista? Se pudesses escolher as palavras para te descrever, sem depender de terceiros, que palavras usarias?

Não gosto da expressão street art, ou arte urbana, nem dessas coisas todas. Um artista é livre. O facto de eu fazer arte no espaço público não significa que tenha de ficar fechado numa caixinha que se convencionou que existe. Temos artistas desde o início dos tempos a fazer peças na rua, desde as pinturas nas cavernas às esculturas de bronze, que temos muitas em Lisboa, e ninguém chamou a isso street art. Sou um artista livre. Gosto de trabalhar com desperdício, gosto de fazer pintura, um artista pode fazer o que quiser, não vale a pena fechá-lo e dizer que ele é isto ou aquilo.

E quando é que o lixo, que para ti é uma matéria-prima, se transforma em arte?

Surgiu a partir de experiências que fazia em casa, num pequeno estúdio que tinha. Ia pondo para o lado caixas, embalagens, latas vazias, coisas que não usava, porque não era nada organizado. Comecei a juntá-las e a colá-las, fiz algumas superfícies e pintei-as. Gastei tudo o que tinha lá. Foi a base da base. Percebi que achava aquilo interessante e comecei a explorar a plasticidade das coisas, temáticas diferentes. Percebi que trabalhar com desperdício era mais do que uma coisa formalmente interessante por nos dar uma terceira dimensão, mas tinha um conceito muito forte ligado aos dias de hoje e aos problemas da actualidade.

Pode então dizer-se que foi mais ou menos por acidente, por seres desorganizado e deixares o lixo acumular-se à tua volta?

Sim, uma coisa levou à outra, o facto de ter deixado acumular-se aquele lixo ali é que me fez olhar para o desperdício como potencial matéria-prima.

Depois há um processo de consolidação artística e começas a ir buscar materiais a diversos sítios.

Isto foi o início do início. Depois começo a querer coisas e materiais específicos, a perceber os objectos que se aproximam mais do conceito que quero explorar, maioritariamente plásticos. Muitas peças são apanhadas em aterros ilegais, em fábricas abandonadas onde as pessoas deitam o lixo, depósitos da Câmara [de Lisboa], material apanhado na rua…

Todo o teu trabalho é uma crítica que nos toca na consciência?

Espero que seja. A ideia é que o meu trabalho não seja indiferente e não seja levado como uma criação meramente decorativa. A ideia não é criar coisas bonitas com o lixo. Esse é um meio para chegar a um fim. As pessoas aproximam-se porque é algo agradável à vista mas depois conseguem interpretar uma série de mensagens subliminares e entender o que se está a falar.

É uma arte muito pouco elitista, muito democrática, mesmo para a pessoa mais simples que nunca pôs os pés num museu.

A mim interessa-me que o meu trabalho seja o mais abrangente possível. Não faço trabalhos para pobres nem para ricos, trabalho para a sociedade em geral. Porque a sociedade é um todo, não funciona só com uma classe ou com outra, mas como um conjunto.

Mas estas peças poderiam estar num museu.

Sim, tenho várias peças em museus.

Quantas horas dedicas ao trabalho? Cumpres um horário, trabalhas 24 horas quando tens de acabar qualquer coisa?

Depende muito, conforme os trabalhos. É muito flexível até que as coisas tenham de acontecer rapidamente, como tiver que ser. A gente orienta-se!

És mais individualista ou trabalhas sempre em colectivo?

Tenho sempre um ou dois assistentes a trabalhar comigo. Trabalho desta dimensão é impossível de se fazer sozinho. Quero ser o cérebro da coisa mas preciso de ajuda em muitos momentos, seria impossível colocar ali aquele carro sozinho.

Estás há quanto tempo aqui em Xabregas?

Comecei a trabalhar aqui há dois anos e acabou por se tornar o meu estúdio. Isto era de uns clientes meus que acabaram por se tornar meus amigos e parceiros. Era suposto já ter sido reabilitado, o processo atrasou-se e agora decidi fazer aqui uma exposição para me despedir do espaço.

Fala-se da zona oriental de Lisboa como o próximo pólo de desenvolvimento da cidade de Lisboa. Sentes isso? Vês isso a começar a acontecer?

Sim, acho que esta zona vai crescer muito. Aliás, Lisboa vai crescer. Muitas outras zonas também vão ter de crescer. Há muita gente a querer vir viver para a cidade, apesar dos preços altos das casas e das queixas do costume. Penso que vão surgir zonas de subúrbio dentro da cidade, o que é óptimo. Uma cidade não vive de uma cultura só, mas do conjunto de todas as culturas. Lisboa tem isso e é fantástico! Tornam-na muito mais interessante, sem lhe roubar aquela velha essência das tascas antigas e tudo o mais. É fantástico a gente meter-se numa ruela no Martim Moniz, sentar-se num restaurante e pensar que estamos no outro lado do mundo. Não tem preço!

Sendo tu um cidadão do mundo, Lisboa é a tua cidade?

Isso mesmo, sou um cidadão do mundo mas Lisboa é a cidade onde eu gosto de viver.

Como está a correr a exposição? Conversas com as pessoas?

Muito bem! Não estou cá sempre, mas acho que as pessoas gostam. Há pessoas que ficam cá dentro uma hora e meia, dão voltas e voltas, e ainda bem, porque há muitos pormenores para ver.

Como estás a gerir a notoriedade recente? Mudou alguma coisa? Afecta-te?

É positivo. Quer dizer que o meu trabalho tem uma mensagem que chega a algum lado, que tem algum efeito. Se as pessoas falam de mim ou do meu trabalho é bom sinal, quer dizer que me estão a ver e a perceber o que eu quero dizer.

E o que se segue?

Continuar a viajar, fazer peças, ir por aí fora!

 

A exposição “Attero” está aberta de quarta-feira a domingo, das 14h às 20h, até 26 de Novembro. Pode encontrar algumas fotografias e todas as informações relevantes na página do Facebook de Bordalo II. O artista agradece o apoio da Feeders, do 1908 Lisboa Hotel, da Câmara Municipal de Lisboa e dos restantes parceiros.

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