Reportagem
A Arte contra a Parkinson
Morador dos Olivais surpreende família e amigos ao fazer frente à sua doença através da criação de bonecos com rolhas de cortiça.
José Alveolos foi sempre um homem activo. Nasceu em Aljezur, no Algarve e aos 18 anos mudou-se para os Olivais, em Lisboa. Com toda a sua juventude dedicada à agricultura, José foi cumprir o serviço militar a Goa, na Índia, regressando novamente aos Olivais para trabalhar no matadouro local.
Com uma vida repleta de actividade, José viu o seu mundo desabar quando, há três anos atrás, lhe diagnosticaram a doença de Parkinson. “Quando soube que estava doente fiquei muito triste e desmotivado. Tinha 73 anos na altura e foi um grande choque”, afirma.
Fazer frente à doença
A partir daquele momento, José teve de abandonar alguns dos seus prazeres, como beber vinho e fumar, e começou a tomar,
de forma rigorosa, a medicação que o ajuda a controlar os principais efeitos da doença: tremor, lentidão na iniciação de movimentos e rigidez muscular. Mas os medicamentos não foram as únicas prescrições recomendadas.
“A minha médica aconselhou-me a fazer trabalhos que me obrigassem a mexer e a tentar controlar os movimentos da mão. Primeiro comecei a fazer desenhos, mas depois uma amiga da minha filha disse-me que havia quem fizesse trabalhos com rolhas e decidi experimentar”, conta.
Actualmente, o olivalense dedica seis horas por dia aos trabalhos em cortiça e controla cada vez melhor o movimento do canivete com que trabalha este material. Faz bonecos, porta-chaves, quadros e animais. Com seis anos de dedicação a esta arte, José já perdeu a conta ao número de objectos que produziu ao longo dos últimos anos.
“Demoro cerca de uma hora com cada trabalho.Com a prática, fui tornando-me cada vez mais rápido e confesso que não imaginava que já tinha tantos trabalhos”, afirmou numa visita que fizemos à sua exposição “Arte em Cortiça”, que esteve patente ao público na Casa da Cultura dos Olivais durante o mês de Julho.
Os resultados que esta actividade tem tido para o seu bem-estar são notáveis e quem conhece José dificilmente diria é portador da doença de Parkinson.
“Isto ajudou-me muito na doença. Não só a nível físico, mas psicológico também, pois é uma motivação. Já nem tremo das mãos. E quanto mais faço, melhor fico”, acrescenta visivelmente satisfeito.
Trabalho para toda a obra
Nos Olivais, já todos conhecem os trabalhos do seu vizinho e é, também, graças a eles, que José consegue manter esta paixão.
“As rolhas são me dadas por amigos e restaurantes locais, que como já conhecem o que faço, guardam rolhas para me darem”, conta.
Embora a maioria dos trabalhos tenham como tema a agricultura, é possível encontrar, também, entre as várias criações do artista, personagens bem conhecidas do público, como o Zé Povinho ou o Papa Francisco. Entre elas existe uma que tem um significado especial e que serve de fonte de inspiração para o artista.
“Fiz um boneco do Papa João Paulo II porque gosto muito dele. Ele tinha a mesma doença que eu e tremia muito. Mas isso nunca o impediu de fazer o seu trabalho. Sinto uma empatia por este papa e até tenho uma fotografia dele no local onde faço os meus trabalhos pois sinto que me dá força para eu continuar a lutar contra a doença”, explica.
José Alveolos é, assim, um exemplo de força e de que existe sempre uma solução ou uma forma de dar a volta aos problemas. Foi confrontado com uma das piores notícias da sua vida, no entanto fez-lhe frente e, graças a ela,descobriu o artista que há em si. Afinal, acabou por ganhar mais do que imaginara e é hoje um exemplo de esforço e muita perseverança.




Belíssimo trabalho e quanta produção. Grande incentivo.