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“Brancusi ou a busca da essencialidade das coisas”

Damos voz neste espaço ao director coordenador do MAC – Movimento Arte Contemporânea, que nos traz um olhar sobre Brancusi e a Roménia.

“Homenageando aquele que é hoje considerado um dos principais impulsionadores da escultura moderna e contemporânea, quando em 2007 apresentei, no Instituto Cultural Romeno, a palestra “Brancusi – a mística das formas” estava longe de imaginar o interesse que a mesma iria despertar. Agora, não pretendo alongar-me muito sobre Brancusi, guardando para a palestra já mencionada uma mais profunda explanação sobre este grande Mestre.

Apresento-vos Constantin Brancusi, impulsionado pela grande admiração que por Ele nutro, homem e obra, que rapidamente tentarei contextualizar no panorama das vanguardas europeias do século XX, esperando suscitar a vossa curiosidade. A abrangência da criatividade requer que tenhamos em conta particularidades sobre aspectos muito diversos, desde o nível comportamental e experimental até ao nível contextual.

Em Constantin Brancusi temos, por um lado, a ingenuidade da “criança” maravilhada pela revelação do mundo ao qual se contrapõe uma sabedoria profunda, enraizada no passado, herança de várias gerações.

Brancusi nasce em Hobita, Roménia, em 1876, descendendo de uma família de camponeses. Aí, recolhe o universo imaginário que virá a suportar toda a imagética da sua obra. A Escola de Artes e Ofícios de Craiova, que frequenta entre 1894 e 1898, dá-lhe o primeiro contacto com a arte popular romena e com as técnicas e materiais do ofício do entalhe em madeira. Os estudos prosseguem, e depois de uma breve estadia em Munique, parte a pé para Paris, facto que lhe trará grande reconhecimento pela classe artística que então vigorava na Cidade Luz, onde o escultor se fixa em 1904.

Chegava a Paris um escultor independente, com um caminho inovador, pessoal e coerente. Renunciando aos preceitos da capital francesa, encaminhou-se para o estudo da escultura arcaica, do primitivismo das formas, da recém-descoberta Arte Africana e para um meio mais táctil do que visual, de abordar a escultura, desenvolvendo-a no sentido de privilegiar a simplicidade formal, tendo sempre por objectivo alcançar “o verdadeiro significado das coisas”, numa importante valorização da materialidade e do carácter simbólico da Arte.

Após a chegada a Paris, trava conhecimento com a obra de Auguste Rodin, mas recusa o convite do mestre para ingressar no seu atelier. Não é uma atitude de arrogância, já que Brancusi reconhece na obra de Rodin, o ponto de partida da escultura moderna.

Embora as primeiras obras que Brancusi exibiu em Paris reflectissem ainda o estilo do velho mestre, rapidamente recusou as suas atormentadas superfícies na busca pela essencialidade expressiva das formas. “O Beijo” de Brancusi, datado de 1908, é a antítese da escultura homónima de Rodin, adiantando-se às primeiras experiências cubistas, assumidas como pioneiras da escultura moderna, mas a ruptura de Brancusi é muito mais radical. Antes dele, nenhum outro havia recusado de forma tão veemente a submissão ao modelo, dissociando-se verdadeiramente da estatuária narrativa ou de superfície.

Brancusi prossegue sozinho, abrindo novas vias à escultura do início do século XX, no momento em que a cena artística europeia vivia com frenesim a aventura da investigação de novas linguagens formais e expressivas.
Em Paris, a Rue de Delta era por esta altura um ponto fulcral de intensa actividade artística. Sob o mecenato do médico Paul Alexander, juntavam-se no Grupo Delta, Amedeo Modigliani, Juan Gris, Max Jacob, os Delaunay, Archipeno, Brancusi e Amadeo de Souza-Cardozo, entre outros, desenvolvendo entre si laços de amizade e convívio que protagonizaram os movimentos de ruptura que viriam a alterar em definitivo os cânones de representação da arte ocidental.

A ligação de Modigliani, Brancusi e Amadeo é uma pista importante no quadro das relações das vanguardas parisienses. E se em Portugal muito se fala da «influência» que Brancusi teria tido sobre Amadeo através de Modigliani, outra posição veio a público em 1995.

Nos estudos sobre a obra do escultor romeno, publicados no catálogo da sua retrospectiva no Centro Pompidou, Friedrich Teja Bach veio propor a origem de algumas esculturas de Brancusi em desenhos de Amadeo, apoiando a sua tese em ilustrações que estabelecem caminhos que vão, por exemplo, desde o desenho de Amadeo, “Le Bain das Sorcières” (do álbum XX Dessins) até à escultura de Brancusi, “La Sorcière”, entre outras relações de proximidade plástica.

As influências sofridas nas obras dos diversos intervenientes do Grupo, interpretadas hoje como influências fundamentais para o desenvolvimento das linguagens das vanguardas do início do século, são totalmente justificadas pelo ambiente de euforia criativa e concorrencial que se vivia entre os seus membros, propício a trocas plásticas e vivenciais.

Influências à parte, o grande “boom” do Grupo Delta acontece em 1913, quando o crítico norte-americano Walter Pach selecciona grande parte dos seus membros para a primeira edição do Armory Show, unanimemente considerado o ponto de partida da arte contemporânea americana.

Nova Iorque, Chicago e Boston conheciam o que de melhor se praticava na arte europeia. Souza-Cardozo e Brancusi são incluídos no grupo de artistas franceses, iniciando o percurso de notoriedade internacional que, no caso de Amadeo será interrompido pelo retorno a Portugal e pela morte precoce, em 1918.

Na sua discreta consideração sobre a essencialidade metafísica das coisas, Brancusi inicia a relação narrativa de formas facilmente identificáveis. Gradualmente, foi descobrindo essa “essência” numa forma oval feita de pedra, com o mais alto requinte técnico e formal. A partir de agora, Brancusi recusa tudo o que é acidental e
procura a forma absoluta até alcançar a “quase” perfeição. Procurando o modo de dar expressão a temas espirituais e filosóficos, ele descobriu a mais eloquente maneira de traduzir o não descritivo em formas totalmente depuradas. Mas mais do que a busca da «forma pura ou abstracta», é a noção de “redução” que importa realçar.

Brancusi nega-se à abstracção. E argumenta: “aquilo a que chamam de abstracto é o que existe de mais realista. O que é real não é a aparência mas a ideia, a essência das coisas.”

A reflexão sobre o mundo foi, para Constatin Brancusi, a reflexão sobre a própria escultura. Ao longo de toda a carreira, retoma constantemente os temas fundamentais que revelam as suas convicções espirituais, a sua preocupação pela essencialidade das coisas, tornando-as simultaneamente fim, começo e recomeço de tudo.

Numa auto-reflexão sistemática, a sua obra articula informação da maior actualidade, participando da inquieta busca de novos e diferentes caminhos com uma muito marcada individualidade criativa, dialogando entre a “ruptura” e a “tradição”.

Em todas as suas obras são visíveis as fontes de inspiração na natureza, o reportório folclórico e arquitectónico romeno, o interesse pelo corpo humano e, sobretudo, a sua recusa das tradições da escultura figurativa académica.

O bloco, o cilindro, a pirâmide compõem o vocabulário elementar da produção de Brancusi, até que encontra a forma arquetípica mais importante: a esfera ovalada, dinâmica e variável.

A partir de então, dedicou-se a penetrar nas capas da aparência superficial das “coisas”, como as considerava, para procurar as formas essenciais e conseguir uma beleza caracterizada pela redução dos pormenores em materiais diferentes: bronze, mármore ou alabastro, polidos até alcançar superfícies lisas e imaculadas, resplandecentes de luz.

Brancusi apurou a sua forma de representar a ideia, polindo as superfícies a ponto de fazer da escultura não uma peça tridimensional mas transcendendo a presença do material, transformando-o em infinitas partículas de luz, como se desmaterializasse a própria matéria.

A constante e “infindável” repetição dos motivos e dos módulos atinge a monumentalidade com a série de “Colunas Infinitas” que inicia em 1913, e que culminam no monumento erigido em Tirgu-giu, na Roménia, em 1937: a grande Coluna Infinita prestava homenagem aos jovens que se insurgiram contra o exército alemão na defesa de uma ponte durante a I Guerra Mundial.

Procurando uma sequência ascensional do espaço, o monumento ergue-se com os seus trinta metros de altura como se o escultor, através dele, projectasse na sua elevação a própria memória da humanidade.

Constantin Brancusi morre em Paris em 1957, eternizando-se por uma obra constantemente aberta a todo o pensamento artístico moderno e contemporâneo. Ao percorrer o seu trabalho, encontraremos todos os “memorandos” e ancestrais formas que preenchem a intranquila e espiritual pesquisa do mestre.

Nenhum outro escultor do século XX retomou uma e outra vez os mesmos temas de forma tão insistente como Brancusi, obsessivo e paciente, realizando diferentes versões do mesmo motivo. Obras como Maiastra, Danaíde, A Foca, Pássaro no Espaço, Musa Adormecida ou Mlle. Pogany demonstram essa pesquisa pela forma primeira que tanto ansiava encontrar.

Hoje, permanecem sublimes, puras e luminosas. Tão vivas como nunca e nunca deixarão de viver nessa busca quase platónica, não da matéria palpável mas da fisicidade tornada quase irreal da luz, como se essa fosse a sua matéria-prima, o objecto final da sua catarse, o seu referente imediato. Brancusi na sua repetição exaustiva, avançava na demanda constante da essência.

Brancusi avançava exaustivamente na pesquisa da essencialidade das “coisas”. Das “coisas” que constituíram possivelmente o começo deste mundo que é o nosso!

Álvaro Lobato de Faria
Diretor Coordenado do MAC
Movimento Arte Contemporânea

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