DossierReportagem
Elas vão dar que falar
Na Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais, mais conhecida por ADCEO, há uma equipa que dá ainda os primeiros passos, mas que já conta com alguns sucessos dignos de registo.
Quem disse que o futebol era um desporto exclusivamente para homens? Seja quem for que assim pense, estará por esta altura um pouco desactualizado.
A paixão pelo desporto rei foi conquistando adeptas, e há já muito que ninguém estranha vê-las nos estádios por esse país fora a torcer pela sua equipa favorita. Mas como uma paixão não se fica pelo aplauso de quem assiste, é natural que floresçam projectos de futebol feminino no movimento associativo, prontos a aproveitar este fascínio pelo futebol.
Criada há cerca de um ano, a equipa de futebol feminino da ADCEO orgulha-se de ter nos seus quadros jogadoras com talento inquestionável, que se permitem sonhar com voos mais altos.
Harun Carsane, cara conhecida por todos no mundo da ADCEO, e que até há bem pouco tempo exerceu o cargo de director desportivo, não esconde o que sente: “pessoalmente, estou muito orgulhoso, e a colectividade está mais orgulhosa ainda”! E explica logo de seguida o motivo: “é fantástico que em menos de um ano tenhamos tido três jogadoras convocadas para o Torneio Inter-Associações”. Uma delas, de seu nome Tânia Rodrigues, acabou mesmo por convencer os responsáveis e representar a selecção da AF Lisboa na prova, que decorreu entre 14 e 18 de Abril em Fátima e no Entroncamento.
Crescimento sustentado
A formação é feita passo a passo, sem queimar etapas: “ainda temos poucas jogadoras, mas é assim que tem de ser… estamos a formá-las, muitas delas nem sabiam o que é chutar uma bola”, aponta Harun Carsane.
No entanto, já se fazem planos para uma evolução sustentada: “para a próxima época vamos ter duas equipas, uma equipa de séniores e outra de formação, ou seja, sub-18”, explica o responsável. Este crescimento da equipa significa que algumas atletas vão jogar duas vezes por semana, competindo ao sábado na categoria sub-18 e ao domingo no campeonato da promoção.
No entanto, para Harun Carsane, “ainda há muito preconceito em relação às meninas que gostam de jogar futebol… No século XXI ainda não é normal ver uma mulher com uma bola”.
Treinar mulheres é um desafio
O responsável não tem dúvidas de que é mais difícil treinar uma equipa feminina que uma masculina: “trabalhar com mulheres é complicado, mais difícil do que trabalhar com a minha outra equipa, de infantis masculinos (futebol de 7)”.
Esta é uma ideia partilhada pelo treinador da equipa, Ademar Colaço: “sempre treinei jogadores masculinos, esta é a minha experiência no futebol feminino, portanto foi um grande desafio… estamos a falar de uma equipa com várias jogadoras que praticam a modalidade pela primeira vez”.
À frente do conjunto praticamente desde o início, em Setembro de 2013, Ademar Colaço elogia o grupo que orienta: “não são miúdas problemáticas, aceitam tudo o que lhes é dito e ouvem a voz do treinador”. Desportivamente, a temporada está a correr bem, com uma prestação que corresponde às melhores expectativas.
Quem corre por gosto não cansa
Treinar é uma paixão para Ademar Colaço. Apesar de a sua profissão não ter nada a ver com o desporto (trabalha num Centro de Formação Profissional), nunca quis abandonar o futebol, desporto que praticou por muitos anos. Adepto do Benfica, não hesitaria se um dia surgisse a oportunidade de se tornar treinador profissional. As suas referências são o inevitável José Mourinho e um treinador que lhe ensinou muito: Ademir Miranda.
O seu estilo é interventivo: não se cansa de dar indicações às jogadoras e de corrigir posicionamentos e pormenores técnicos. “Sou muito exigente, daí falar e gritar muito durante os treinos e durante os jogos”, explica o mister.
Um excelente ambiente no balneário
Salta à vista de todos os que observem esta equipa que existe uma relação de confiança e entreajuda entre as atletas e a equipa técnica. “Esta equipa é uma família, todas se dão bem fora daqui”, conta o treinador. “O espírito de grupo é bom e isso é importante para cimentar a confiança”, conclui.
Tânia Rodrigues, atleta de 15 anos que pode ser considerada a estrela da equipa, confirma: “somos todas muito unidas, não há problemas entre nós”. Conta que sempre gostou de jogar à bola, mas mais que isso, ser uma jogadora de futebol profissional. Embora esteja consciente dos obstáculos que terá de vencer para lá chegar, afirma com segurança que tem o que é preciso. “Sinto-me muito orgulhosa por ter chegado à selecção de Lisboa e agora falta a Nacional”, remata.
Formação humana antes da desportiva
Laura Costa, de 18 anos, é capitã de equipa e destaca o espírito que as une. Para ela, uma das principais características de um bom jogador é saber jogar em equipa e estar atento aos companheiros. Chegou a pensar desistir do futebol feminino, muito por culpa da distância que tinha percorrer para poder treinar. Mas quando a ADCEO lançou a equipa, não desperdiçou a oportunidade. Não se queixa de nada, nem sequer dos gritos do mister: “ajudam-nos a corrigir o que fazemos mal”!
“A ADCEO está aqui para formar estas pessoas”, declara Harun Carsane. “Obviamente que é importante competir dentro do campo e ganhar jogos. Mas há outras coisas importantes para nós”. As notas e o rendimento escolar são uma preocupação constante da estrutura técnica, que não se coíbe de chamar a atenção das jogadoras sempre que alguma coisa não está bem.




