Reportagem

Ir às vindimas em plena cidade de Lisboa

Fomos à vindima com os primeiros voluntários da campanha deste ano no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa, em plena Tapada da Ajuda, em Lisboa.

Todos os anos é assim: algures na segunda quinzena de Agosto, o ISA abre inscrições para que os voluntários possam experimentar o que é uma vindima, reunindo algumas dezenas de participantes na sua vinha.

Este ano, estivemos na Tapada da Ajuda logo no primeiro dia da colheita, onde espreitámos as operações e conversámos com um dos docentes responsáveis e também com alguns dos voluntários.

A 20 de Agosto, num dia em que os termómetros até nem castigavam muito, porque o mês de Agosto teve os seus humores, estavam registados para a vindima 58 voluntários adultos, mais 16 crianças, além do staff da casa, que dava as orientações necessárias, fornecia o material e tratava de fazer o transporte da vinha até às instalações dentro de quatro paredes.

Uma “experiência muito engraçada”

De tesoura na mão, Cláudia Gaspar fazia a parte do corte mas deixava o resto para outa pessoa. É que a filha, Carina, com 9 anos, não pegava na tesoura por motivos de segurança, mas não dispensava a parte de “pegar nos cachos de uvas e pôr aqui nos baldes”. Vinda de Cascais, Cláudia veio ainda acompanhada do filho André, de 7 anos, e de uma amiga, que por acaso até foi quem os inscreveu aos quatro no formulário disponível no site do ISA.

“Tive conhecimento através da minha amiga Catarina, que está aqui connosco. Nunca tinha participado numa vindima, vim acompanhada pelos filhotes por achar que é uma experiência muito engraçada”, relatou ao nosso Jornal.

Quanto a Carina, afirmava sem vergonhas: “Estou a achar o máximo, muito divertido mesmo!”. Como é óbvio, sabia perfeitamente para que iam servir as uvas: “Para fazer vinho, mas eu não posso beber vinho porque ainda não tenho idade”. Já o mano André, que estava dois metros à frente, distraía-se um pouco mais da missão de não deixar Catarina de mão estendida com as uvas, mas também foi um trabalhador muito aplicado naquela manhã. Disse-nos que gostava de fruta e que comia muitas uvas!

“Será sem dúvida uma experiência a repetir, assim que surgir a oportunidade. Esperamos estar cá novamente para o ano”, finalizou Cláudia Gaspar.

Escolhemos outro corredor e encontramos António Pedro, que já é repetente na vinha do ISA. “Tive conhecimento da necessidade de voluntários há uns quatro ou cinco anos, inscrevi-me e desde então tenho vindo sempre, um ou dois dias. Sou oriundo do Norte, de terras com vinha, da zona de Trancoso e até tenho uma vinha minha”.

Conta-nos que é apreciador de vinho e que gosta mais de tinto: tudo o que tiver um bocadinho de touriga nacional, syrah…”. Quanto à iniciativa, considera-a uma ideia “bastante boa”: “Só vem quem quer, porque só vêm voluntários. É uma forma de ajudar e de estar aqui ligado à terra mesmo em Lisboa, numa manhã diferente”.

11 castas em apenas 2,7 hectares

Jorge Ricardo da Silva, docente universitário, está no ISA desde 1987 e é um dos responsáveis que dá a cara pela equipa que organiza a vindima.

“Que eu me lembre, esta iniciativa não tem muitos anos, talvez desde 2012. Desde então nunca mais suspendemos”, explica-nos. “As vindimas são cada vez mais cedo e não temos cá os alunos, porque muitos estão em férias e são de longe. Especificamente os de Viticultura e Enologia estão nesta altura a fazer o estágio de vindima, uma cadeira do curso, nas empresas, até começarem as aulas. No passado tínhamos muito mais funcionários e era contando com eles que fazíamos as vindimas. Assim sendo, começámos a recorrer aos voluntários. É uma forma de nos ligarmos à população e à cidade, as pessoas gostam e o passa-palavra é um fenómeno: começámos com poucas pessoas e agora temos mais de uma centena de voluntários a vindimar todos os anos. Hoje em dia, sem voluntários, seria muito difícil fazer a vindima dentro da janela de oportunidade, isto porque a fazemos manual e não mecanicamente”.

No dia da nossa visita, apenas seriam colhidas uvas da casta Alvarinho. As outras castas ficariam para depois. É evidente para quem tomou já contacto com esta realidade, mas quem desconhece os procedimentos poderá não saber que a data da vindima é decidida em função do controlo de maturação das uvas.

“Temos sempre o número de voluntários suficiente para terminar a vindima a uma hora agradável, antes das horas de calor. No passado, terminávamos as vindimas no fim de Setembro, mas nos últimos anos temos terminado entre a última semana de Agosto e a primeira de Setembro”, completa o professor.

Ficámos ainda a saber que o ISA tem, numa área considerada pequena, sete castas brancas e quatro castas tintas. Afirma Jorge Ricardo da Silva: “11 castas em 2,7 hectares não é fruto do acaso: é para os alunos tomarem contacto com castas distintas, com comportamentos e maturações distintos, que dão vinhos muito diferentes que depois são provados em aula”.

Como gesto de agradecimento aos voluntários, o Gabinete de Espaços Verdes do ISA deixa uns “miminhos” para levarem para casa: uvas de mesa, para recordarem o seu contributo!

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