Cultura
Exposição “Entre a Memória e a Forma Viva” na Galeria MAC
A Galeria Movimento Arte Contemporânea recebe, de 7 a 29 de Maio, a exposição de arte “Entre a Memória e a Forma Viva”.

“Dois Mestres, Uma História Maior da Pintura Portuguesa
Há momentos na vida cultural de um país que exigem mais do que uma simples exposição — impõem um gesto de consciência, de reconhecimento e de reposição histórica. A presente mostra do Movimento Arte Contemporânea nasce exatamente desse imperativo: o de reafirmar, com clareza e elevação, o lugar maior de dois nomes incontornáveis da pintura portuguesa — o Mestre Hilário Teixeira Lopes e o Mestre Rogério Amaral.
Ambos já desaparecidos, mas absolutamente vivos na força das suas obras, Hilário Teixeira Lopes e Rogério Amaral não foram apenas pintores de exceção: foram construtores de linguagem, criadores de universos próprios, referências de uma geração que soube pensar a pintura para além do imediato, inscrevendo-a num plano de exigência, rigor e profunda autenticidade.
Hilário Teixeira Lopes, com quem tive o privilégio raro de partilhar 32 anos de amizade e cumplicidade artística, foi um criador de densidade invulgar. A sua pintura não se oferecia à facilidade — exigia olhar, tempo e entrega. Há nela uma dimensão quase meditativa, onde a matéria e o gesto se transformam em pensamento visual. A sua obra permanece hoje como um território de resistência estética e de verdade interior, cada vez mais necessário no contexto contemporâneo.
Rogério Amaral, seu companheiro de percurso e de afinidades profundas, construiu uma obra de notável coerência e intensidade. Dotado de uma linguagem firme e reconhecível, afirmou-se como um dos grandes nomes da pintura do seu tempo, conquistando, com inteira justiça, o reconhecimento da crítica e do público. As suas exposições conjuntas com Hilário Teixeira Lopes foram, em múltiplas ocasiões, momentos de verdadeiro acontecimento cultural, onde se cruzavam duas visões distintas mas profundamente dialogantes.
O reencontro destas duas obras, neste contexto expositivo, não é um exercício de memória nostálgica — é um ato de afirmação cultural. É dizer, com clareza, que estes dois mestres pertencem ao núcleo duro da melhor pintura portuguesa e que o seu legado continua a interpelar-nos, a desafiar-nos e a elevar-nos.
A presença do escultor Ricardo Gigante introduz nesta exposição uma dimensão contemporânea de grande relevância. Apesar de ser referido como o mais jovem deste trio, trata-se de um artista com 57 anos e quase 30 anos de carreira , com um percurso já amplamente consolidado, tanto a nível nacional como internacional. O seu vasto currículo, sustentado por inúmeras distinções e participações em importantes mostras, legitima plenamente a sua integração neste projeto de elevado nível.
A escolha de Ricardo Gigante não é, por isso, circunstancial — é criteriosa e consciente. A sua obra, marcada por uma linguagem escultórica segura, madura e profundamente expressiva, estabelece um diálogo sólido com o legado dos dois mestres. Mais do que um contraponto geracional, afirma-se como um prolongamento contemporâneo de uma exigência artística que atravessa décadas.
Reunindo artistas distinguidos com inúmeros prémios nacionais e internacionais, esta mostra afirma-se não apenas como um dos momentos mais relevantes da programação do MAC, mas como um acontecimento incontornável no panorama cultural.
Mais do que uma exposição, esta é uma tomada de posição: a de que a grande pintura — e a grande arte — não passa, não se dilui, não se esquece.
Permanece.”
Álvaro Lobato de Faria
“Entre a Memória e a Forma Viva”, de 7 a 29 de Maio na Galeria Movimento Arte Contemporânea, Avenida Álvares Cabral n.º 58, Lisboa.



