Início » Reportagem » José Buginga, o artesão-carpinteiro das Amendoeiras

Tem 75 anos, trabalha a madeira na privacidade da sua habitação e exprime-se através da sua arte. Chama-se José Teixeira Buginga e tem um talento enorme!

No Bairro das Amendoeiras, onde vive, uns conhecem-no por Buginga, outros por Zé. Vive neste bairro da freguesia de Marvila há cerca de 40 anos, conforme nos conta assim que começamos a conversar.

Logo quando entramos na sua casa, não há como não ficar surpreendido com a porta… Afinal de contas, não é todos os dias que entramos em casa de alguém que decorou a porta de sua própria casa, trabalhando directamente a madeira!

Transpondo a ombreira, encontramos um conjunto de obras de arte feitas por este nosso amigo: barcos, castelos e catedrais enchem as prateleiras, enquanto os brasões da GNR, da PSP ou do Sport Lisboa e Benfica fazem parte das peças expostas na parede.

Até o relógio de parede normalíssimo está encastrado numa bonita peça, para não destoar do ambiente envolvente!

Trabalhou como carpinteiro mecânico, de onde virá certamente o jeito para os trabalhos que nos mostrará com detalhe mais tarde, mas também andou por outros afazeres, como a estiva ou a construção civil. Guarda com carinho os 23 anos passados na carpintaria da UTIC (União de Transportadores para Importação e Comércio).

Aos 69 anos reformou-se e só então começou a dedicar-se a sério ao trabalho de artesão. Nunca ganhou dinheiro com a sua arte, porque também nunca fez nenhuma peça com o intuito de a vender.

Um passado nem sempre fácil

A história de José Buginga não é das mais agradáveis de se ouvir. Nascido de uma família sem posses, andou pelo Lar de Acolhimento Adolfo Coelho, em Carnide, e pelo Colégio D. Nuno Álvares Pereira, da Casa Pia.

A escola não foi muito o seu campeonato, porque “nunca [teve] muito jeito nem para as letras nem para os números”. Além do mais, conta-nos que “apanhou muita porrada” porque ninguém o entendia.

“Nasci na Madeira, na Ponta do Sol, mas vim para Lisboa quando ainda era muito pequeno. Eu compreendia tudo o que as pessoas diziam, mas ninguém me compreendia a mim. Estava sempre a levar porrada por causa da maneira como falava. Ia para o Colégio saturado de levar na cabeça, não ligava nenhuma à escola. Puxavam pouco por mim porque não me compreendiam, não me deram se calhar o apoio que eu precisava”, explica o nosso amigo. E conta-nos a história de uma professora manca que tinha fama de ser mais rígida. “Era quem me fazia mais medo!”.

Ligava à ginástica, à oficina, a tudo menos à escola. As letras e as cópias não eram para ele, mas o trabalho manual já era outra conversa!

Apesar de ter feito algumas peças ao longo do tempo, como uma grande nau que está na sua sala de estar, que conta já mais de 30 anos, concentrou-se mais no seu passatempo após a reforma, naturalmente.

“A primeira obra assim grande que fiz foi a Praça Vermelha, o Kremlin. Vi no jornal e engracei com aquilo. Disse a mim próprio: um dia hei-de fazê-lo! Naquela altura era proibido, mas guardei a ideia para fazer mais tarde. Também tinha a ideia de fazer um presépio dentro de um ovo. Essa desisti, mas o Kremlin não descansei enquanto não fiz!”.

Caravelas, rabelos, a Basílica de São Pedro, em Roma, a Basílica da Estrela, o Padrão dos Descobrimentos, o Kremlin em Moscovo, a Sagrada Família em Barcelona, o Mosteiro da Batalha, o Palácio da Pena… São inúmeras as autênticas obras de arte que compõem o espólio do nosso amigo.

“Dá muito trabalho, dá!”

Inspira-se no que vê em postais, na internet, na televisão… Primeiro vem a observação de uma perspectiva geral, depois dá uma volta completa, focando-se nos pormenores. E sem dar por ela, já está a avaliar por onde deve começar e o que precisa de fazer para que o trabalho fique bem feito. “Umas peças começam-se pelo meio, outras por uma ponta e vai tudo a eito. No final meto um verniz cera para aguentar e não se estragar”, esclarece.

Perguntamos se dá muito trabalho. Arregala os olhos e responde: “Dá muito trabalho, dá! Fazer um rabelo como aqueles que ali estão leva três dias a fazer se trabalhar 8 horas por dia. Normalmente a mim leva-me uma semana”.

“Já disse a algumas pessoas que fiz estas coisas, muitos não acreditaram. Não sei usar as palavras para convencer as pessoas, há pessoas que dizem duas frases e acreditam neles, eu não consigo. Paciência!”, exclama resignado.

Apesar da pouca escolaridade, conta-nos orgulhoso que conseguiu “aprender a mexer no computador”, já com 70 anos: “Fiz um grande esforço para aprender, para fixar a escrita, por causa das teclas que é preciso mexer, para a leitura e para as coisas mesmo da internet. Aprendi aqui na Junta de Marvila, ia lá uma vez por semana e consegui apanhar as três coisas ao mesmo tempo”.

Os vizinhos desconhecem os pequenos tesouros que ocupam as estantes e prateleiras da sua casa. Tudo artefactos trabalhados com uma serra de fita e uma navalha, com paciência e detalhe. “Isto é como se eu tivesse uma máquina de costura, só que o meu trabalho é com madeira”, resume muito simplesmente.

A inspiração, essa, nunca se esgota: “Temos cá muitos monumentos lindos. Quando eu vejo, se me agrada, é aquilo que eu vou fazer. Se tivesse de pôr um valor, não sabia quanto é que havia de pedir pelas minhas coisas. Inscrevi-me na associação dos artesãos mas desisti, não consegui pôr-lhe um valor. Um dia, quando vir que isto não fica para ninguém, se a minha filha não quiser, deixo para o Museu da Casa Pia”.

É com as memórias desse espaço que há-de sempre acarinhar no coração que terminamos a nossa conversa.

Damos uma última mirada à Basílica de São Pedro, outra ao Mosteiro da Batalha e imaginamos o rio Tejo, sobranceiro ao Castelo de Almourol.

Nunca é tarde para fazer desabrochar talentos semi-escondidos, e aqui está o senhor José Teixeira Buginga para o provar!

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